O Brasil vive um paradoxo que desafia a lógica do progresso. De um lado, ostentamos uma vanguarda tecnológica no agronegócio e uma capacidade produtiva de dimensões continentais.
Do outro, esbarramos em um teto de vidro invisível, mas intransponível: a mediocridade estrutural de uma classe política que trocou o projeto de nação pelo projeto de rede social.
A internet, que prometia ser o motor de transformações necessárias para tirar o país de décadas de crescimento medíocre, tornou-se, ironicamente, o combustível para o nosso atraso. O que vemos hoje não é a ascensão dos mais preparados, mas a sobrevivência dos mais barulhentos.
O achatamento cognitivo da liderança
Essa mediocridade não é apenas moral, é cognitiva. Como alerta o neurocientista Miguel Nicolelis, estamos vivenciando um “achatamento” do cérebro humano pelos algoritmos.
Ao trocarem o debate profundo pelo meme, nossos políticos estão abrindo mão da inteligência complexa para se tornarem escravos do engajamento digital.
O cérebro político, que deveria ser capaz de articular soluções para dilemas complexos, torna-se binário, opera apenas no “nós contra eles”.
O resultado é uma liderança incapaz de planejar o país para os próximos vinte anos, pois está viciada na recompensa imediata do clique e da dopamina gerada pelo conflito.
A gestão refém do engajamento
Nesse cenário, o plano de governo tornou-se um acessório descartável. Se a ascensão ao poder baseia-se exclusivamente no ataque às instituições e na desqualificação do “inimigo”, o exercício do cargo será apenas a continuação dessa guerra digital.
É lamentável perceber que temos tecnologia de ponta no campo, mas uma mentalidade de “vila” na capital federal.
O político que vive de likes é um gestor que não entrega; ele precisa do caos para se manter relevante, pois na paz e no progresso técnico, sua figura desaparece por falta de conteúdo.
O despertar necessário para o futuro
Não se faz política de Estado com frases de efeito ou ataques ao Supremo e ao Congresso. Enquanto a população for seduzida pela agressividade digital, que nada mais é do que uma cortina de fumaça para a incapacidade técnica, continuaremos sendo o país do futuro que nunca chega.
O Brasil tem pressa, mas enquanto a mediocridade for aplaudida e o preparo for ignorado, seguiremos presos em um presente de postagens vazias e resultados invisíveis.
É preciso romper o ciclo do algoritmo para que o país, enfim, ocupe o lugar que sua grandeza exige.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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