AGRICULTURA
Entre fundamentos mais sólidos e novas incertezas: o delicado ponto de inflexão do mercado de arroz
Published
3 meses agoon

Nos últimos meses, o mercado brasileiro de arroz passou a emitir sinais que dificilmente podem ser ignorados. Depois de um longo período marcado por margens negativas em virtude do excesso de oferta, observa-se uma mudança gradual na dinâmica de formação dos preços. A recuperação das cotações deixou de ser sustentada apenas por fatores pontuais e passou a refletir, cada vez mais, fundamentos ligados à disponibilidade física, ao comportamento dos produtores e ao ritmo das exportações.
Ainda é cedo para afirmar que o setor ingressou em um novo ciclo plenamente consolidado, mas é evidente que o mercado já não apresenta a mesma configuração observada durante os últimos semestres.
Mudança de comportamento
Grande parte dessa mudança decorre da redução gradual da oferta disponível. A comercialização tornou-se mais seletiva, a dificuldade de originação aumentou em praticamente todas as regiões produtoras e os produtores passaram a administrar seus estoques de forma muito mais estratégica.
Depois de comercializar parcela significativa da produção em níveis considerados insuficientes para remunerar os custos, muitos optam por vender apenas volumes necessários para atender compromissos financeiros imediatos. Essa mudança de comportamento ocorre justamente quando o setor passa a incorporar expectativas relacionadas à safra 2026/27.
O horizonte, sob essa perspectiva, tornou-se mais construtivo. Nos Estados Unidos, queda expressiva da área cultivada e da disponibilidade exportável tende a diminuir a concorrência internacional. Na Ásia, embora os grandes exportadores continuem ativos, observa-se um ambiente de oferta cada vez mais ajustado e maior preocupação com a oferta futura.
No Brasil, além da redução da área cultivada, ganha força a percepção de que os elevados custos de produção, as restrições de crédito e os riscos associados aos impactos do El Niño poderão limitar investimentos, reduzir o nível tecnológico das lavouras e afetar severamente a produtividade. Caso esse conjunto de fatores se confirme, a oferta futura poderá tornar-se mais restrita, favorecendo um balanço mais equilibrado entre oferta e demanda ao longo de 2027.
Arroz na balança comercial
Entretanto, nenhuma variável tem exercido influência tão decisiva quanto a balança comercial. As exportações passaram a desempenhar papel central na sustentação das cotações, funcionando como o principal mecanismo de redução dos excedentes internos e de reequilíbrio entre oferta e demanda.
Entre março e junho deste ano, o Brasil embarcou mais de 670 mil toneladas (base casca), acumulando um superávit comercial próximo de 53 mil toneladas, resultado que reforçou a importância estratégica do mercado externo para aliviar os elevados estoques domésticos. Em julho, contudo, o ritmo mostrou perda parcial de fôlego: até a quarta semana, as exportações somavam 130,4 mil toneladas (base casca), enquanto as importações alcançavam 143,6 mil toneladas, gerando um déficit parcial de 13,2 mil toneladas.
Apesar disso, o line-up permanece robusto, com embarques destinados à Venezuela, além de cargas programadas para outros mercados, indicando continuidade do fluxo exportador. O desafio, entretanto, continua sendo expressivo.
O setor trabalha com a meta de aproximadamente 2 milhões de toneladas exportadas nesta temporada, objetivo considerado crucial para acelerar a redução dos excedentes internos, consolidar o processo de reequilíbrio do mercado e criar condições para uma recuperação mais consistente das cotações ao longo dos próximos meses.
Estoques públicos
E é justamente nesse ponto que surge a principal preocupação dos agentes. O mercado iniciou a temporada com estoques superiores a 2 milhões de toneladas, volume que ainda funciona como um importante amortecedor da recuperação dos preços. A estratégia predominante vinha sendo clara: ampliar as exportações para reduzir gradualmente esse excedente. No entanto, o anúncio recente do governo federal sobre a aquisição de 310 mil toneladas de arroz em casca, por meio da Aquisição do Governo Federal (AGF), introduziu um novo elemento de enorme incerteza.
Embora a justificativa oficial — recompor estoques públicos, fortalecer a Política de Garantia de Preços Mínimos e mitigar riscos associados ao El Niño — seja compreensível sob a ótica da política agrícola, o mercado reagiu com muito receio. Persistem dúvidas sobre a operacionalização da medida. Mais do que isso, cresce o receio de que o anúncio estimule uma retenção ainda maior dos estoques justamente quando o mercado começava a ganhar tração e em um momento considerado decisivo para o desempenho das exportações.
Momento decisivo
O mercado do arroz atravessa um momento decisivo. Após mais de um ano de margens negativas, perdas financeiras, sucessivos eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul e um ambiente de crédito cada vez mais restritivo, qualquer mudança nas expectativas tende a produzir efeitos imediatos sobre o comportamento dos agentes.
Nesse contexto, torna-se ainda mais importante que eventuais intervenções sejam cuidadosamente calibradas, amplamente esclarecidas e implementadas de forma previsível, evitando gerar sinais contraditórios justamente quando o mercado começava a encontrar, por seus próprios fundamentos, um caminho gradual de reequilíbrio.
Mais do que medidas pontuais, o setor necessita de políticas estruturantes capazes de enfrentar seus verdadeiros desafios: elevados custos de produção, restrições ao crédito, dificuldades de investimento, aumento do custo financeiro, infraestrutura, competitividade e mecanismos eficientes de gestão de risco.
A recuperação da cadeia produtiva dependerá, sobretudo, da capacidade de fortalecer esses pilares, preservando o funcionamento dos mecanismos de mercado e proporcionando maior segurança para produtores, indústrias e demais partícipes.
Em um ambiente ainda fragilizado, decisões baseadas em fundamentos, planejamento e previsibilidade serão determinantes para consolidar um processo sustentável de recuperação. Afinal, o mercado pode conviver com oscilações de preços, mas dificilmente absorve, sem custos, incertezas adicionais em um momento de reconstrução tão delicado.
*Evandro Oliveira é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e especialista de Safras & Mercado para as culturas de arroz e feijão
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