POLÍTICA
Bolsonaro e aliados estudam estratégias pós-denúncia
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2 anos agoon
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Da Redação
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se reuniu na manhã desta 4ª feira (19.fev.2025) com aliados, 1 dia depois da denúncia da PGR (Procuradoria Geral da República) contra ele e outras 33 pessoas. O grupo tem articulado a votação do projeto para dar anistia aos presos dos atos extremistas do 8 de Janeiro.
O encontro foi realizado no apartamento do deputado Luciano Zucco (PL-RS), em Brasília. Bolsonaro chegou por volta das 10h. Entrou pela garagem e saiu horas depois. Não falou com jornalistas.
Também participaram o ex-ministro do Turismo Gilson Machado, os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG), Caroline de Toni (PL-SC), Carlos Jordy (PL-RJ), Zé Trovão (PL-SC) e Domingos Sávio (PL-MG).
O vereador de Balneário Camboriú (SC) Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), filho do ex-presidente, também compareceu. Foi perguntado sobre como avalia a denúncia contra o pai, mas não respondeu.
Aliados também evitaram falar. Disseram que se pronunciariam em uma entrevista na tarde desta 4ª feira (19.fev) na Câmara.
“Como o cara quer fazer o golpe e pacifica a transição? […] Cadê a minuta do golpe? Cadê os considerandos do golpe? Eu digo uma coisa, se tiver fundamentação, tem que botar para torar. Agora, se for inventar uma narrativa, isso só cola para quem é vassalo”, disse Gilson Machado, um dos únicos a falar.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, encaminhou denúncia contra Jair Bolsonaro na noite de 3ª feira (18.fev). Para ele, o ex-chefe do Executivo era o líder da organização criminosa que planejou um golpe de Estado em 2022. Eis as íntegras (PDF 6,1 MB e 6,4 MB).
“Os delitos descritos não são de ocorrência instantânea, mas se desenrolam em cadeia de acontecimentos, alguns com mais marcante visibilidade do que outros, sempre articulados ao mesmo objetivo – o de a organização, tendo à frente o então presidente da República Jair Bolsonaro, não deixar o Poder, ou a ele retornar, pela força, ameaçada ou exercida, contrariando o resultado apurado da vontade popular nas urnas“, disse Gonet.
O plano de golpe, segundo a PGR e a PF (Polícia Federal), tinha o objetivo de manter Bolsonaro no poder em caso de derrota para o então candidato e atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Teria tido início em julho de 2021 e se estendeu até janeiro de 2023. A execução do plano só não se deu por causa da falta de apoio do Alto Comando do Exército.
A denúncia oferecida à Corte na 3ª feira aponta como líderes do grupo o ex-presidente e o seu candidato a vice na chapa das eleições de 2022, general Braga Netto –preso na operação Contragolpe em dezembro de 2024.
A organização estaria “enraizada na própria estrutura do Estado” e tinha forte influência de setores militares. O grupo se desenvolveu em ordem hierárquica e com divisão das tarefas entre os seus integrantes, segundo Gonet.
De acordo com a PGR, Bolsonaro e Netto “aceitaram, estimularam, e realizaram atos tipificados na legislação penal de atentado contra o bem jurídico da existência e independência dos poderes e do Estado de Direito democrático”.
O procurador geral da República disse que foi de Bolsonaro, junto a aliados, que partiram as principais decisões e ações que levaram à denúncia. Os apontados como principais líderes da organização, depois do ex-chefe de Estado e de Braga Netto, são o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem, o ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) Augusto Heleno, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, o ex-ministro da Defesa Paulo Sergio Nogueira de Oliveira e o ex-comandante da Marinha almirante Almir Garnier.
A atuação de Bolsonaro para viabilizar o golpe começa, segundo Gonet, desde 2018, com o descrédito do processo eleitoral brasileiro que utiliza urnas eletrônicas. Bolsonaro, ainda que tenha ganho as eleições naquele ano, teria iniciado a narrativa de fraude por não vencer a disputa contra Haddad no 1º turno.
Para o procurador, as repetidas vezes em que a lisura das urnas foi colocada em xeque por Bolsonaro, principalmente em 2021, deram início ao planejamento que objetivava a sua permanência forçada no poder. Nesse momento, o suposto plano de golpe também inicia narrativas que afrontam decisões dos tribunais superiores.
Em 5 julho de 2022, a reunião ministerial convocada por Bolsonaro já iniciava a execução do suposto plano. Nela, Gonet ressalta que “falou-se inequivocamente em uso da força”, em um momento em que Lula “já vinha sendo apontado como favorito” para o pleito.
Em 18 de julho de 2022, reunião de Bolsonaro com embaixadores e representantes diplomáticos tentou verbalizar “desmentidas acusações sobre fraudes”, segundo Gonet.
Durante o 2º turno das eleições de 2022, a PGR diz que foram “ilicitamente mobilizados” órgãos de segurança para mapear lugares em que Lula tinha maior quantidade de votos. Cita as operações realizadas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) para “dificultar o acesso tempestivo dos eleitores cadastrados a essas zonas eleitorais”.
Após a derrota no pleito, a execução do plano foi através de uma “narrativa falsa” de fraude nas urnas, para a PGR. A narrativa teria sido alimentada pelos integrantes da organização ao repassarem o material para influenciadores digitais. O objetivo era manter a mobilização popular e sensibilizar as Forças Armadas para que impusessem um regime de exceção.
Segundo Gonet, o presidente apresentou ainda uma minuta que formalizava a quebra da ordem constitucional e cogitava a prisão de Moraes, Gilmar Mendes e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado à época.
As execuções culminaram na chamada operação Copa 2022, codinome usado pelos envolvidos. O sucesso do plano, planejado para 15 de dezembro de 2022, só não se deu por falta de apoio do Alto Comando do Exército.
O último ato do suposto plano foi o 8 de Janeiro. A denúncia aponta que o grupo incentivou a mobilização das pessoas em frente ao quartel-general do Exército em Brasília, pedindo a intervenção militar na política.
A análise da PGR rememora 2021, quando o ex-presidente passou a adotar uma postura de se pronunciar publicamente sobre o seu descontentamento com as decisões do STF, do TSE e com o sistema eleitoral eletrônico.
Durante as investigações, foram encontrados manuscritos, arquivos digitais, planilhas e trocas de mensagem “reveladores”, segundo Gonet, onde o grupo formado por Bolsonaro e aliados pretendia “estabelecer um discurso sobre urnas eletrônicas e votações” e replicar a narrativa “novamente e constantemente” para deslegitimar a futura derrota nas urnas.
A prática foi efetivada por Bolsonaro em 29 de julho de 2021, quando abriu uma live no Youtube para, segundo a PGR, dar um “curso prático ao plano de insurreição” dentro do Palácio do Planalto.
Na ocasião, o ex-presidente retomou as críticas ao sistema eletrônico de votação e exaltou a atuação das Forças Armadas. A atitude, segundo Gonet Branco, fez com que autoridades públicas “do mais elevado grau de responsabilidade” fossem alvos de perseguições e de fake news.
“A partir de então, os pronunciamentos públicos passaram a progredir em agressividade, com ataques diretos aos poderes constituídos, a inculcar sentimento de indignação e revolta nos seus apoiadores e com o propósito de tornar aceitável e até esperável o recurso à força contra um resultado eleitoral em que o seu adversário político mais consistente triunfasse”, afirmou.
O ex-presidente e outras 33 pessoas foram acusadas por suposta tentativa de golpe de Estado em 2022 visando a impedir a posse de Lula (íntegras – PDF 6,1 MB e 6,4 MB). As penas podem chegar até 43 anos. A denúncia contra 34 pessoas foi encaminhada por Paulo Gonet ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Dentre elas, estão:
Eis as penas previstas para cada crime pelo qual Bolsonaro responderá:
Próximos passos no STF:
A PF (Polícia Federal) indiciou Bolsonaro, o candidato a vice e ex-ministro da Defesa, general Braga Netto, o ex-ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid, e outras 34 pessoas em 21 de novembro do ano passado. Em 11 de dezembro, a corporação adicionou mais 3 pessoas dentre os acusados, totalizando 40.
No documento, a PF afirma ter identificado o que seriam provas ao longo da investigação que mostram de forma “inequívoca” que Bolsonaro “planejou, atuou e teve domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios realizados pela organização criminosa que objetivava concretizar o golpe de Estado e a abolição do Estado democrático de direito”.
Os indícios contra os envolvidos foram obtidos pela PF ao longo de quase 2 anos, por meio de quebras de sigilos telemático, telefônico, bancário e fiscal, além de colaborações premiadas, buscas e apreensões.
O objetivo do grupo envolvido, formado majoritariamente por militares, seria impedir a posse do presidente eleito para recolocar Bolsonaro no poder. Contudo, segundo a corporação, haveria ainda um plano para matar Lula, seu vice Geraldo Alckmin (PSB) e prender ou executar o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A operação Contragolpe da PF prendeu 4 militares ao ser expedida em 19 de novembro de 2024. As investigações levaram ainda à prisão do general Braga Netto, além de outros alvos das apurações.
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