AGRICULTURA

Biofertilizante feito com bagaço de uva aumenta em mais de 250% antioxidante em flor comestível

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Foto: Patrícia Ritschel/ Embrapa

Um resíduo abundante da produção de vinho pode ganhar uma nova utilização na agricultura. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolveram um biofertilizante à base de bagaço de uva que favoreceu o desenvolvimento da calêndula pôr do sol (Calendula officinalis L.) e aumentou a concentração de compostos de interesse nutricional nas flores.

Em um dos experimentos, realizado durante o verão, a aplicação do produto elevou em mais de 250% a concentração de betacaroteno em comparação com o cultivo convencional sem o uso do resíduo. O composto, precursor da vitamina A, tem ação antioxidante.

A pesquisa, desenvolvida no doutorado de Luiz Eduardo Nochi Castro, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, recebeu apoio da Fapesp e teve os resultados publicados na revista científica ACS Omega.

O bagaço utilizado no estudo é um dos principais subprodutos da fabricação de vinho e corresponde a aproximadamente 20% a 25% da massa total das uvas processadas.

Segundo os pesquisadores, entre 9 milhões e 13 milhões de toneladas desse material são geradas anualmente no mundo.

Apesar de ser um resíduo, o bagaço ainda concentra componentes de interesse, como fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais.

“Utilizamos o bagaço da uva porque ele é um dos principais resíduos da produção de vinho e ainda possui uma composição muito rica em substâncias de interesse”, explica Castro.

A proposta dos pesquisadores foi justamente aproveitar esse potencial para desenvolver um produto de maior valor agregado e, ao mesmo tempo, buscar uma destinação mais sustentável para o resíduo das vinícolas.

Bagaço foi transformado em biofertilizante

Antes de chegar às plantas, o bagaço de uva passou por um processo de digestão anaeróbia, no qual microrganismos decompõem a matéria orgânica sem a presença de oxigênio.

O processo resultou em um digestato, biofertilizante líquido rico em nutrientes que posteriormente foi utilizado no cultivo da calêndula.

Ao longo de 2023, os pesquisadores realizaram experimentos no verão e no inverno para avaliar também a influência das condições climáticas sobre o desenvolvimento das plantas.

Foram testadas diferentes quantidades de biofertilizante e condições de irrigação. Depois da colheita, as flores passaram por liofilização, técnica de secagem utilizada para preservar suas características, e foram submetidas a análises físico-químicas.

O estudo não ficou restrito às flores. Os cientistas avaliaram também folhas, raízes e a parte aérea das plantas e compararam os resultados com aqueles obtidos no cultivo convencional.

Os experimentos mostraram que simplesmente aumentar a quantidade de digestato não significa obter resultados melhores.

Segundo Tânia Forster, professora da FEA-Unicamp e orientadora da pesquisa, doses moderadas apresentaram o melhor desempenho, enquanto quantidades excessivas prejudicaram o desenvolvimento das plantas.

“Isso mostra que o uso do digestato deve ser feito de forma equilibrada”, afirma a pesquisadora.

A quantidade de água fornecida às plantas também influenciou os resultados.

Um dos principais resultados apareceu no experimento conduzido durante o verão. As flores cultivadas com o biofertilizante atingiram concentração de até 80,9 miligramas de betacaroteno para cada 100 gramas de flor liofilizada.

O resultado representa um aumento superior a 250% em relação ao cultivo convencional sem o digestato.

Também foram registrados aumentos nos níveis de compostos fenólicos totais e na atividade antioxidante das flores.

No inverno, os efeitos foram diferentes. O destaque ficou para uma maior retenção de pigmentos e minerais, indicando, segundo os pesquisadores, que o biofertilizante pode enriquecer o perfil nutricional da planta sob diferentes condições sazonais.

De resíduo da vinícola a alimentos e cosméticos

A calêndula é uma flor comestível que vem despertando interesse das indústrias alimentícia e de cosméticos justamente pela presença de compostos antioxidantes.

Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que novos estudos serão necessários antes que o uso do biofertilizante possa chegar à escala comercial.

Entre os pontos que ainda precisam ser avaliados estão os custos, a logística e a viabilidade de integrar o processo às vinícolas ou a empresas que já utilizam a digestão anaeróbia para tratar resíduos.

Uma das próximas etapas da pesquisa pretende explorar ainda mais o aproveitamento do bagaço. Além dos antioxidantes e compostos fenólicos, os cientistas estudam a extração de açúcares e pigmentos naturais que poderiam ser empregados em alimentos, cosméticos e outros produtos.

A proposta é criar uma cadeia baseada nos princípios da economia circular: utilizar o bagaço de uva para produzir energia e biofertilizante, empregar o adubo no cultivo de flores comestíveis e, posteriormente, transformar tanto as flores quanto os resíduos desse cultivo em produtos de maior valor agregado..

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