AGRICULTURA
Aos 69 anos, produtor trocou São Paulo pelo campo e hoje comanda 24 aviários
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2 meses agoon

Trocar uma empresa de reciclagem na maior cidade do país por uma propriedade rural e começar praticamente do zero em uma nova atividade não parece uma decisão simples, principalmente aos 69 anos. Para o produtor Pedro Antônio Oliveira, porém, a mudança representou a oportunidade de iniciar outro capítulo profissional e, ao mesmo tempo, buscar uma rotina diferente.
Três anos depois de contar sua história pela primeira vez ao Interligados – Vida no Campo, a família voltou a receber a equipe do programa para mostrar o que aconteceu desde então. O empreendimento cresceu, os filhos ganharam espaço na administração e os planos de expansão continuam.
Na primeira visita, a propriedade tinha 16 aviários. Agora são 24, após a construção de outras oito estruturas entre 2023 e 2025. A próxima meta é chegar a 30.
“Estamos com 24 aviários agora. E, no futuro, nós estamos fazendo mais seis aviários para completar os 30. Era a meta mais ou menos que a gente tinha”, conta Pedro.
O crescimento acompanha uma história que começou longe dos galpões de criação. Antes de se tornar avicultor, Pedro passou décadas em São Paulo trabalhando com reciclagem de plástico. Foi uma mudança de circunstâncias, provocada pela pandemia de Covid-19, que o aproximou definitivamente da propriedade rural.
Do trabalho ainda na infância à empresa em São Paulo
A relação de Pedro com o campo, na verdade, começou muito antes da avicultura. Ainda criança, ele trabalhava com os irmãos em propriedades rurais. Passava de um sítio para outro e participava do cultivo de alho, cebola, amendoim e algodão. O trabalho era manual e, segundo ele, começou cedo diante das dificuldades enfrentadas pela família.
Anos depois, já proprietário de uma área rural, decidiu recuperar parte daquela experiência. Em 2003, plantou alho e conseguiu uma boa produção. O problema veio na comercialização.
“Na colheita foi muito boa, produziu bastante porque eu já tinha essa experiência, porém não teve preço, então não teve lucratividade”, relembra.
A experiência não avançou comercialmente, mas deixou até um apelido. Pedro conta que ficou conhecido na região como “Pedro do Alho”. Depois, cultivou milho e investiu em eucalipto.
A maior parte da trajetória profissional, no entanto, foi construída na cidade. Pedro viveu por décadas em São Paulo e manteve durante 25 anos uma empresa de reciclagem de plástico, negócio no qual também trabalhavam os dois filhos.
Pandemia mudou os planos
A virada ocorreu durante a pandemia. Por causa da idade e das preocupações com a Covid-19, Pedro decidiu passar mais tempo na propriedade rural, que até então frequentava principalmente nos fins de semana.
A permanência mais longa mudou sua percepção sobre o lugar. Ele gostou da rotina, mas sabia que não pretendia simplesmente parar de trabalhar. Começou, então, a observar as atividades desenvolvidas na região e pesquisar alternativas que pudessem ser implantadas na propriedade.
Foi nesse processo que a avicultura apareceu. Pedro percebeu a expansão das granjas na região, conversou com produtores que já estavam na atividade e procurou assistência para avaliar a viabilidade do projeto. Depois das visitas e análises, começaram as primeiras construções.
A decisão também levou em conta uma limitação concreta: a disponibilidade de terra. Para ele, ampliar significativamente cultivos como soja e milho exigiria uma área maior. A criação de aves permitia concentrar a produção em uma estrutura diferente.
É nesse ponto que Pedro usa uma expressão para definir o negócio que escolheu: “É o pequeno grande produtor, porque é uma fábrica de carne.”
Na visão dele, o sistema de integração também foi determinante para a decisão, já que estabelece uma estrutura de produção e comercialização entre produtor e integradora.
“A primeira vez é muito difícil”
Entrar em uma atividade nova exigiu aprendizado. Pedro admite que o começo trouxe insegurança justamente pela falta de conhecimento sobre a rotina da avicultura.
“A primeira vez é muito difícil, porque você não sabe por dentro direitinho daquela atividade”, afirma.
Para ele, enfrentar esse desconhecimento faz parte da trajetória de quem decide empreender. “A gente vai engolindo alguns sapinhos que não sabe aqui, não sabe ali”, brinca ao falar sobre o período de adaptação.
O produtor destaca que a assistência recebida durante a implantação e a operação dos aviários teve papel importante para que a família aprendesse a conduzir o negócio.
Com o passar dos anos, não foram apenas as estruturas físicas que cresceram.
A gestão também mudou. Um dos filhos, Edmilson, deixou São Paulo e passou a participar diretamente da administração da propriedade. A equipe responsável pelos aviários aumentou e, segundo a família, a experiência adquirida levou a ajustes sucessivos na forma de administrar a produção.
“Fomos adquirindo experiência. Fomos fazendo a gestão de um jeito e depois fizemos gestão de outro jeito e a gente está aprimorando ainda”, resume Pedro.
De 16 para 24 aviários
Quando a família recebeu a reportagem três anos atrás, 16 aviários estavam em funcionamento.
Entre 2023 e 2025, mais oito foram construídos. As novas estruturas começaram a operar entre o fim de dezembro de 2025 e janeiro de 2026, elevando o total para 24.
Agora, o planejamento prevê mais seis, chegando aos 30 aviários.
A expansão também exigiu ampliar a equipe e profissionalizar a administração. O objetivo é preparar a propriedade para uma operação maior sem perder o controle sobre os resultados.
A estratégia tem ainda um componente familiar: aos poucos, Pedro transfere aos filhos a responsabilidade pelas decisões.
Sucessão começa antes de parar de trabalhar
Apesar da disposição para continuar acompanhando a propriedade, Pedro diz que a sucessão já está em andamento.
“Já passei os negócios para eles. Eu só estou na cabeça por enquanto”, afirma.
Para ele, não existe uma idade predeterminada para alguém estar pronto para assumir responsabilidades. A maturidade, diz, chega em momentos diferentes para cada pessoa. Por isso, passou a deixar decisões nas mãos dos filhos conforme percebeu que estavam preparados.
Um dos filhos descreve Pedro como exemplo de empreendedor desde a infância e diz que acompanhá-lo influenciou sua própria maneira de administrar.
“Na vida dele eu vejo que ele sempre só construiu, meu pai sempre só construiu, sempre batalhou”, afirma. A filosofia da família para a nova atividade, segundo ele, foi semelhante: “A gente vai entrar, mas vamos entrar com tudo”.
Vida no interior
O crescimento do negócio não é a única medida utilizada por Pedro para avaliar se a mudança valeu a pena.
Depois de viver 47 anos em São Paulo, ele encontrou no interior uma rotina que descreve como completamente diferente.
Na capital, conta, os dias começavam em ritmo acelerado. “Quase não tinha tempo nem de tomar café de manhã, já saía pulando do portão para fora.”
No campo, a sensação foi outra.
“Quando eu cheguei aqui, eu falei: ‘Nossa, eu respirei fundo, agora vou descansar um pouco’.”
O descanso, no entanto, não significou parar. A tranquilidade procurada no interior veio acompanhada da construção de um negócio que continuou crescendo. “Enquanto eu respirar e tiver ânimo, estarei fazendo”
Mesmo com a sucessão em andamento, Pedro ainda fala sobre expansão. Quando questionado sobre até quando pretende continuar investindo na avicultura, a resposta passa menos pela idade e mais pela disposição para trabalhar.
“Enquanto eu respirar e tiver ânimo, e tiver força, eu estarei fazendo, fazendo, fazendo.”
A frase ajuda a explicar uma trajetória marcada por mudanças de atividade, cidade e modelo de negócio. Pedro também diz que o trabalho, para ele, precisa deixar conhecimento para o futuro.
“Quando você vai fazer alguma coisa, você não vai lá para cumprir horário. Você não vai lá para poder só fazer aquela atividade durante aquele dia. Você vai para pegar e aprender sabendo que você vai utilizar isso mais tarde.”
Agora, aos planos de alcançar 30 aviários soma-se a preparação da próxima geração para conduzir a propriedade.
Ao falar sobre fazer parte de uma cadeia responsável pela produção de alimentos, Pedro resume o sentimento de olhar para aquilo que ajudou a produzir:
“Aquele orgulho está em quem está sentado no sofá olhando isso, quem fez aquele produto. Isso é gratificante para todos nós.”
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