AGRICULTURA
A IA não é grátis. A conta ainda vai chegar
Published
2 meses agoon

A inteligência artificial chegou ao cotidiano pelo caminho mais sedutor: a facilidade. Ela escreve, pesquisa, organiza, resume, calcula, traduz, programa e economiza tempo. Em muitos casos, gratuitamente. Nas versões mais sofisticadas, cobra mensalidades ainda acessíveis para uma parcela considerável da população e das empresas.
O resultado é uma transformação de comportamento em velocidade extraordinária. Quanto mais a inteligência artificial é utilizada, mais indispensável ela se torna.
O problema é que essa fase de abundância e baixo custo pode não durar para sempre.
No início, a inteligência artificial parecia uma novidade. Depois, virou ferramenta. Agora, começa a se transformar em infraestrutura econômica.
O Brasil está entre os três maiores mercados do Chat GPT em número de usuários ativos semanais. Segundo a OpenAI, os brasileiros já enviam aproximadamente 215 milhões de mensagens por dia à plataforma. Mais de um terço das interações classificadas no país está relacionado ao trabalho.
No mundo, o aplicativo do Chat GPT ultrapassou 1 bilhão de usuários ativos mensais, de acordo com estimativas da Sensor Tower divulgadas pela Reuters.
Não se trata necessariamente de um vício no sentido clínico. É algo economicamente mais relevante: uma dependência funcional.
Quando uma pessoa descobre que consegue realizar em uma hora o que antes exigia uma tarde inteira, abandonar a ferramenta passa a representar perda de produtividade. E quando uma empresa transfere parte de sua rotina, de sua memória e de seus processos para uma plataforma, mudar de fornecedor deixa de ser uma decisão simples.
A inteligência artificial não precisa obrigar ninguém a permanecer. Basta tornar muito caro o ato de sair.
Trilhões não são investidos por caridade
A expansão da inteligência artificial exige chips, energia, data centers, redes de transmissão, sistemas de refrigeração, profissionais qualificados e volumes gigantescos de capital.
O Goldman Sachs estima que os investimentos mundiais relacionados à IA ultrapassem US$ 1 trilhão somente em 2026.
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a Unctad, projeta que o mercado global de inteligência artificial poderá alcançar US$ 4,8 trilhões em 2033.
Todo esse dinheiro precisará produzir retorno.
As empresas que hoje oferecem acesso gratuito ou relativamente barato estão ampliando suas bases de usuários, testando produtos, conhecendo hábitos, construindo ecossistemas e incorporando a tecnologia às rotinas pessoais e empresariais.
Não é caridade tecnológica. É estratégia de escala.
Primeiro, a ferramenta conquista o usuário. Depois, passa a fazer parte de seu trabalho. Por fim, torna-se difícil substituí-la.
O valor da Nvidia antecipa o futuro
O mercado financeiro já tenta calcular quanto valerá esse domínio.
Em maio de 2026, a Nvidia chegou a aproximadamente US$ 5,7 trilhões em valor de mercado, superando a estimativa de US$ 5,45 trilhões para o PIB anual da Alemanha, integrante do G7 e maior economia da Europa.
Valor de mercado de uma empresa e PIB de um país são medidas diferentes. A comparação não deve ser feita como se fossem equivalentes. Ainda assim, a imagem revela a dimensão das expectativas criadas em torno da inteligência artificial.
A Nvidia não vale tanto apenas pelos chips que vende hoje. Seu preço incorpora a expectativa de que governos, empresas e consumidores precisarão cada vez mais da infraestrutura que ela ajuda a fornecer.
Em outras palavras, os mercados já estão cobrando antecipadamente os lucros de uma economia dependente da IA.
A formação de uma sociedade em dois andares
A cobrança futura provavelmente não ocorrerá apenas por meio de uma assinatura mensal mais cara.
O mercado poderá oferecer diferentes níveis de inteligência: uma versão básica e limitada para a maioria e sistemas mais rápidos, precisos, completos e autônomos para quem puder pagar.
Uns terão acesso a ferramentas capazes de pesquisar, planejar, negociar, analisar documentos e executar tarefas. Outros permanecerão com versões restritas, menor capacidade de processamento e limites de utilização.
A desigualdade digital, portanto, poderá mudar de natureza.
Durante muito tempo, a divisão ocorreu entre quem tinha e quem não tinha acesso à internet. No futuro, ela poderá separar quem dispõe de inteligência computacional avançada de quem recebe apenas uma versão reduzida.
Não será apenas uma diferença de conforto. Será uma diferença de produtividade, renda, educação e capacidade de competir.
Esse risco também chegará ao campo
No agronegócio, a inteligência artificial será cada vez mais utilizada para previsão climática, análise de solo, controle de custos, escolha de insumos, concessão de crédito, comercialização, rastreabilidade e cumprimento de exigências ambientais.
Grandes grupos terão condições de contratar sistemas próprios, integrar bancos de dados e adquirir ferramentas mais avançadas. Pequenos e médios produtores poderão depender de versões padronizadas ou fornecidas por empresas que também controlam crédito, insumos, comercialização ou informações estratégicas.
Se esse processo não for acompanhado, a inteligência artificial poderá aumentar a produtividade do campo e, ao mesmo tempo, ampliar a distância entre os produtores.
A tecnologia que deveria democratizar o conhecimento poderá concentrar ainda mais o poder de decisão.
O risco do monopólio cognitivo
A preocupação não é apenas econômica. É também geopolítica.
Segundo a Unctad, apenas 100 empresas, concentradas principalmente nos Estados Unidos e na China, respondem por cerca de 40% dos investimentos empresariais mundiais em pesquisa e desenvolvimento.
A OCDE também identifica elevada concentração em diferentes segmentos da infraestrutura da IA. Em algumas áreas, uma única empresa controla mais de 80% do mercado.
Quando dados, chips, nuvens, modelos e plataformas ficam concentrados em poucas companhias e países, o restante do mundo passa a depender de preços, regras e interesses definidos fora de suas fronteiras.
Esse é o chamado aprisionamento tecnológico: quanto mais uma sociedade organiza sua vida dentro de determinado sistema, maior fica o custo de abandoná-lo.
O Brasil precisa construir alternativas
A resposta não é rejeitar a inteligência artificial. Isso seria condenar o país ao atraso.
Também não significa imaginar que o Brasil conseguirá desenvolver sozinho todos os chips, modelos e plataformas de que necessita. A questão é reduzir a dependência e preservar alternativas.
O país precisa investir em infraestrutura de processamento, energia, formação profissional, pesquisa e bancos de dados nacionais. Precisa estimular modelos abertos, exigir portabilidade das informações e evitar que órgãos públicos e empresas estratégicas fiquem presos a um único fornecedor.
Concorrência, transparência e interoperabilidade serão tão importantes quanto a própria inovação.
A inteligência artificial representa uma das maiores oportunidades econômicas da história. Pode elevar a produtividade, melhorar a educação, ampliar o acesso ao conhecimento e reduzir custos.
Mas toda ferramenta que se transforma em infraestrutura também se transforma em poder.
A grande discussão não é se utilizaremos inteligência artificial. Essa decisão já foi tomada pela sociedade. A verdadeira questão é quem controlará a tecnologia, quanto cobrará por ela e quem terá condições de continuar utilizando sua versão mais avançada.
A IA talvez não se torne cara apenas porque custou muito para ser construída. Ela poderá se tornar cara porque, quando a conta chegar, o mundo já não saberá trabalhar sem ela.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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