AGRICULTURA
A disputa pelo prato do futuro, e por que não associamos o feijão à proteína?
Published
3 meses agoon

Há mais de 30 anos acompanho diariamente o mercado de Feijão. Nesse período, aprendi que, quando falamos desse alimento, estamos tratando de muito mais do que uma commodity agrícola. Estamos falando do Prato Feito brasileiro, da segurança alimentar e da forma como milhões de famílias se alimentam.
Posso afirmar que poucas vezes vi tantas mudanças acontecendo ao mesmo tempo, e não apenas na lavoura, mas principalmente no consumidor.
Durante décadas, uma pergunta orientou grande parte das análises sobre o consumo de alimentos: quanto o consumidor pode gastar?
Ela continua indispensável. Inflação, juros, renda, emprego e câmbio determinam o tamanho da cesta de compras. Quando o orçamento aperta, as famílias substituem marcas, reduzem quantidades, procuram promoções e reorganizam o cardápio.
Mas uma segunda pergunta começa a ganhar protagonismo, silenciosamente, no Brasil e no exterior: o que merece ocupar espaço no prato?
Pode parecer uma mudança pequena, mas ela tem potencial para redesenhar uma parte importante do mercado de alimentos. O consumidor continua atento ao preço. Compara ofertas e troca de marca quando necessário. Porém, cada vez mais, sua decisão também considera saúde, praticidade, origem, confiança, qualidade nutricional e a história por trás do produto.
Em outras palavras, ele não procura apenas o alimento mais barato. Procura aquilo que, dentro de seu orçamento, entrega mais valor. Essa transformação merece a atenção do agronegócio brasileiro.
Durante muito tempo, concentramos nossa comunicação na produção. Quantos hectares foram plantados? Qual será a produtividade? Quanto exportamos? Como estão os preços?
Essas questões continuarão essenciais para produtores, empacotadores, cerealistas e exportadores. Mas, se desejamos aumentar o consumo dos alimentos de verdade, precisamos olhar com mais atenção para quem está do outro lado da cadeia: a pessoa que decide, todos os dias, o que colocar na mesa da família.
Essa decisão passou a ser influenciada por fatores que, até poucos anos atrás, quase não apareciam nas análises agrícolas.
O envelhecimento da população aumenta a preocupação com a alimentação preventiva. A incidência de doenças metabólicas amplia a procura por dietas equilibradas. A disseminação de medicamentos voltados ao controle do diabetes e da obesidade também começa a alterar o comportamento alimentar de milhões de pessoas.
Posso falar por experiência própria. Ao iniciar o uso de um medicamento da classe GLP-1, ouvi do médico uma orientação muito clara: seria necessário prestar ainda mais atenção ao consumo de proteína.
Quando a fome diminui, cada refeição passa a ter um peso maior. Não se trata apenas de comer menos. É preciso escolher melhor o que será consumido. Foi então que me fiz uma pergunta: quando se recomenda proteína, por que quase ninguém se lembra do Feijão?
A publicidade costuma relacionar proteína principalmente às carnes, aos laticínios, aos suplementos, às barras e a uma nova geração de produtos industrializados. Ao mesmo tempo, um dos alimentos mais completos, acessíveis e presentes na cultura brasileira permanece quase invisível nessa conversa. Esse é um dos grandes paradoxos da alimentação moderna.
Enquanto a indústria trabalha para adicionar proteínas e fibras a diferentes formulações, o Feijão já reúne naturalmente proteína vegetal, fibras, vitaminas e minerais. Além disso, carrega uma história construída ao longo de gerações.
O mesmo vale para o grão-de-bico, a lentilha e a ervilha. Esses alimentos, conhecidos internacionalmente como pulses, ocupam espaço crescente nos debates sobre nutrição, sustentabilidade e segurança alimentar.
No Brasil, porém, continuamos tratando-os quase exclusivamente como commodities ou produtos básicos de abastecimento. Não está na hora de mudar essa narrativa?
Outro movimento importante ocorre dentro dos supermercados. As grandes redes estão ampliando suas marcas próprias e procurando produtos que combinem qualidade, diferenciação e preço competitivo.
Isso não deve ser visto apenas como ameaça para a indústria. Pode representar uma oportunidade para empacotadores e processadores brasileiros desenvolverem novas linhas de Feijões, pulses, pipoca, gergelim e outras colheitas especiais.
Também cresce o interesse por alimentos minimamente processados, por ingredientes de origem conhecida e por produtos cuja história possa ser contada. O consumidor quer entender quem produz, como produz e por que aquele alimento merece sua confiança.
Isso aproxima o campo da mesa de uma maneira que ainda não compreendemos completamente. E o Brasil possui vantagens extraordinárias nesse cenário.
Somos capazes de produzir durante praticamente todo o ano. Temos uma enorme diversidade de Feijões, além de pulses, pipoca, gergelim e outras culturas especiais. Contamos com pesquisa científica, produtores tecnificados, agricultura familiar, cooperativas, empresas de beneficiamento e presença crescente no comércio internacional.
Mas ainda precisamos conectar essa capacidade produtiva com aquilo que realmente move o consumidor.
Não basta produzir mais. É preciso comunicar melhor. Não basta exportar mais. É preciso construir reputação.
Não basta afirmar que o alimento é saudável. É necessário explicar, demonstrar e participar ativamente da conversa sobre saúde e alimentação.
Quem não ocupar esse espaço corre o risco de produzir alimentos extraordinários e continuar invisível aos olhos do consumidor. É por isso que tenho defendido o conceito de Agroalimento.
O século 21 provavelmente não será lembrado apenas pela expansão do agronegócio. Será lembrado como o período em que a sociedade passou a discutir, com muito mais profundidade, a qualidade daquilo que come.
Quem compreender essa mudança deixará de vender somente produtos agrícolas e passará a oferecer soluções alimentares. Essa diferença é enorme.
O produtor continuará olhando para o clima, os custos, a produtividade, o câmbio e os mercados internacionais. Mas precisará olhar também para o consumidor final, entender suas preocupações, suas aspirações e seus novos hábitos.
A próxima grande disputa do agro não acontecerá apenas pela terra, pela produtividade ou pelos mercados externos. Será também uma disputa por espaço no prato.
O futuro do agronegócio continuará sendo construído na lavoura. Mas será confirmado — ou não — todos os dias, diante de milhões de consumidores.
Quem compreender isso primeiro deixará de disputar apenas mercados. Passará a disputar algo ainda mais valioso: a confiança de quem escolhe o que colocar no prato.
*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post A disputa pelo prato do futuro, e por que não associamos o feijão à proteína? apareceu primeiro em Canal Rural.
Previsão de chuvas na Bahia indica acumulados de até 200 mm em janeiro
Chuva pode chegar a 102 mm em 24 horas em Bela Vista (MS)
Estiagem persiste no norte do Brasil com temperaturas acima de 33°C
Prefeitura e Estado discutem melhorias na segurança viária da Avenida da FEB durante obras do BRT
Miguel Daoud analisa desafios do presidente eleito em 2027
Primeiro CCBB no Nordeste abre as portas na Bahia em 21 de novembro
Vacinômetro do MPMT aponta avanço da cobertura vacinal no Estado
Sicredi supera R$ 500 bilhões em ativos em julho de 2026
Mato Grosso se mantém entre os dez estados com maior movimentação via Pix no país
Ministério da Agricultura confirma caso de doença de Newcastle em SC
ECONOMIA
Mato Grosso se mantém entre os dez estados com maior movimentação via Pix no país
Desde abril, Mato Grosso registra movimentações financeiras superiores a R$ 35 bilhões por mês via Pix, mantendo-se entre os dez...
Empresária amplia produção de uniformes escolares e corporativos com apoio da Desenvolve MT
O sonho da gestora de negócios Silvia Marangon, de produzir uniformes escolares e comerciais começou em casa na década de...
VG regulamenta incentivo fiscal para prestadores de serviços do Aeroporto Marechal Rondon
A Prefeitura de Várzea Grande regulamentou os procedimentos para adesão ao Programa de Incentivos Fiscais do Imposto Sobre Serviços de...
POLÍTICA
Escolas municipais recebem sessões de relaxamento e ginástica laboral para servidores
Várias unidades escolares de Várzea Grande já receberam sessões de relaxamento, massagem terapêutica e ginástica laboral voltadas à saúde e...
VG em Ação reforça limpeza e manutenção no Costa Verde, Primavera e Grande Cristo Rei
VG em Ação reforça limpeza e manutenção no Costa Verde, Primavera e Grande Cristo Rei Comentários
Várzea Grande inicia oferta de insulina glargina pelo SUS e reforça necessidade de prescrição médica
Medicamento é destinado a crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 e idosos a partir de 70 anos com diabetes...
SAÚDE
Carreta de cardiologia do SUS chega a Guarulhos (SP) para oferta de atendimentos especializados
A carreta de cardiologia do programa Agora Tem Especialistas chega a Guarulhos (SP) com consultas e exames especializados para a...
Fumaça das queimadas: saiba como proteger a sua saúde e onde buscar atendimento
Os incêndios florestais em várias regiões do país, com destaque para o Amazonas, têm espalhado uma grande quantidade de fumaça...
El Niño e queimadas: Ministério da Saúde orienta profissionais sobre intoxicação por fumaça
O fenômeno climático El Niño tem 81% de chances de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, o que...
CIDADES
Tribunal de Contas recebe proposta da SES-MT que amplia repasses ao HCan em R$ 19 milhões por ano
O conselheiro Guilherme Antonio Maluf, do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), recebeu nesta terça-feira (20) a proposta da...
Idoso de 68 anos morre após ser atingido por motocicleta em avenida de Mato Grosso
Conteúdo/ODOC – José Ribeiro dos Santos, de 68 anos, morreu na manhã desta sexta-feira (23) após ser atropelado por uma...
Abaixo-assinado cobra transparência na eleição do Conselho Municipal de Cultura de Cuiabá
Assessoria – A MT Cine – Associação Mato-grossense dos Profissionais de Cinema e Audiovisual lançou um abaixo-assinado cobrando transparência, planejamento...
AGRICULTURA
Previsão de chuvas na Bahia indica acumulados de até 200 mm em janeiro
A previsão do tempo para os próximos meses na Bahia indica um retorno gradual das chuvas, com acumulados que podem...
Chuva pode chegar a 102 mm em 24 horas em Bela Vista (MS)
A Climatempo prevê chuva forte em quatro municípios de Mato Grosso do Sul e Minas Gerais entre quarta-feira (28) e...
Estiagem persiste no norte do Brasil com temperaturas acima de 33°C
A estiagem no norte do Brasil, especialmente no estado do Pará e na bacia do Rio Tapajós, deve persistir nos...
POLÍCIA
Politec procura por familiares de homem encontrado morto em Itanhangá
A Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) de Lucas do Rio Verde procura por familiares de um homem identificado como...
Polícia Civil prende em flagrante mulher suspeita de violência doméstica contra criança em Paranatinga
Polícia Civil prende em flagrante mulher suspeita de violência doméstica contra criança em Paranatinga Comentários
Polícia Militar apreende 45 quilos de substância análoga à cocaína em Nova Nazaré
Polícia Militar apreende 45 quilos de substância análoga à cocaína em Nova Nazaré Comentários
Trending
-
OPINIÃO1 ano agoInvenções
-
OPINIÃO2 anos agoA educação transforma
-
OPINIÃO2 anos agoJovem Advocacia Forte!
-
OPINIÃO1 ano agoMãe, mulher e essência
-
OPINIÃO2 anos agoEmpowerment e accountability
-
OPINIÃO2 anos agoSeguidores
-
OPINIÃO2 anos agoVocê é real?
-
ESPORTES2 anos agoAtlético-MG empata com Juventude e perde chance de subir na tabela
