Encerradas as eleições, a análise dos resultados e de seus reflexos sobre o agronegócio brasileiro exige um olhar para além da relação de candidatos eleitos e não eleitos. Mais do que avaliar a nova configuração política, é necessário compreender os impactos diretos e indiretos das urnas sobre um dos setores mais estratégicos da economia nacional.
A reação inicial do mercado financeiro, marcada pela volatilidade da Bolsa e do câmbio, reforça a importância dessa análise. Afinal, como o cenário econômico influenciará o acesso ao crédito rural? Quais serão os reflexos da variação cambial sobre os custos de produção, especialmente em um setor que ainda depende significativamente de insumos importados?
E em que medida a perspectiva de continuidade das boas relações comerciais com a China, principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, contribuirá para assegurar a competitividade do setor nos próximos quatro anos?
Essas questões demonstram que o desempenho do agronegócio não depende exclusivamente das políticas agrícolas. A condução da política econômica, a estabilidade institucional, as relações comerciais internacionais e a previsibilidade regulatória também exercem influência direta sobre as decisões de investimento e a atividade produtiva.
O programa de governo do presidente reeleito apresenta compromissos relacionados a desafios já conhecidos pelo setor, entre eles a ampliação do acesso ao crédito, o fortalecimento do seguro rural, o incentivo à agricultura familiar, a promoção de práticas produtivas sustentáveis, a redução da dependência externa de fertilizantes e o desenvolvimento do mercado de bioinsumos.
Embora relevantes, essas diretrizes exigirão medidas concretas e capacidade de execução. O agronegócio brasileiro precisa de instrumentos que garantam segurança jurídica e condições adequadas para produzir, investir e ampliar sua presença nos mercados internacionais, garantindo sua competitividade. Mais do que novos compromissos, o setor espera avanços efetivos em agendas estruturantes que há anos demandam atenção do poder público.
Nesse contexto, a composição da equipe ministerial, especialmente a definição de quem comandará o Ministério da Agricultura e Pecuária, representará uma importante sinalização sobre as prioridades do próximo mandato e a disposição de diálogo com o setor. Independentemente da continuidade do atual comando ou da escolha de um novo nome, o governo federal precisará reconhecer a dimensão econômica e social do agronegócio e estabelecer canais permanentes de interlocução com seus representantes.
Essa disposição ao diálogo também terá relevância para a governabilidade, especialmente diante de um Congresso Nacional com expressiva representação conservadora e de parlamentares vinculados às pautas do setor produtivo. A construção de consensos e a articulação entre Executivo e Legislativo serão fundamentais para o avanço de medidas que dependam de alterações legislativas, aperfeiçoamentos regulatórios e decisões orçamentárias.
Para o agronegócio, contudo, o diálogo institucional não pode se restringir ao Ministério da Agricultura e Pecuária. A transversalidade das pautas do setor exige interlocução constante com outras áreas do governo, especialmente os ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores.
A política de crédito e as condições de financiamento, por exemplo, dependem diretamente de decisões econômicas e fiscais. Da mesma forma, a abertura de novos mercados, a superação de barreiras comerciais e a ampliação da competitividade internacional exigem uma atuação coordenada entre diferentes órgãos da administração federal.
Também merecem atenção a agenda ambiental e o desenvolvimento de tecnologias capazes de ampliar a produtividade e a sustentabilidade da produção brasileira. O país reúne condições para fortalecer sua posição como referência mundial na produção de alimentos, mas precisa assegurar um ambiente regulatório previsível e políticas públicas compatíveis com essa ambição.
O resultado das urnas inaugura, portanto, um novo ciclo de expectativas e desafios. Para o agronegócio, mais importante do que a orientação política do governo será sua capacidade de transformar compromissos em resultados e oferecer condições para que o setor continue investindo e crescendo.
O agro brasileiro é resiliente e sempre demonstra sua capacidade de adaptação e inovação. Cabe agora ao poder público reconhecer esse protagonismo e assegurar que as decisões dos próximos quatro anos estejam à altura da importância desse setor para o Brasil e para o mundo.
*Karina Tiezzi é gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais. Atuou como assessora legislativa na Câmara dos Deputados, participou da tramitação de proposições de destaque para o agronegócio, como a chamada MP do Agro e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental
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