AGRICULTURA
A rentabilidade do agro está sendo comprimida, e o juro alto faz parte do problema
Published
3 meses agoon

O agronegócio brasileiro vive hoje um paradoxo. Continua aumentando a produção, investindo em tecnologia e sustentando boa parte das exportações do país. Mas, para muitos produtores, produzir mais já não significa ganhar mais.
Essa realidade pode ser resumida por uma imagem simples: uma prensa.
O produtor rural está no centro de duas forças que comprimem sua rentabilidade. De um lado, os preços internacionais das commodities perderam parte do impulso observado na última década. De outro, o custo do dinheiro aumentou e passou a pesar cada vez mais sobre a atividade.
O resultado é uma rentabilidade menor justamente em um setor que depende intensamente de crédito para produzir.
O capital mudou de destino
Durante muitos anos, os mercados financeiros apostaram fortemente nas commodities.
O crescimento da China e de outras economias emergentes sustentava a expectativa de uma demanda crescente por alimentos, proteínas e matérias-primas. Esse ambiente atraía investimentos e ajudava a sustentar os preços agrícolas.
Hoje, parte desse capital mudou de direção.
A inteligência artificial abriu uma nova fronteira tecnológica. Empresas ligadas à inovação, à infraestrutura digital e ao processamento de dados passaram a concentrar grandes volumes de investimentos, atraindo recursos que antes também abasteciam mercados como o das commodities.
Essa migração não explica, sozinha, a formação dos preços agrícolas. Mas ajuda a entender por que o cenário internacional se tornou menos favorável à valorização desses produtos.
Quando a rentabilidade diminui
A queda dos preços internacionais seria menos preocupante se os custos acompanhassem esse movimento.
Mas acontece exatamente o contrário.
Os custos de produção continuam elevados.
E há um deles que pesa sobre todos os demais: o custo do crédito.
Muita gente acredita que a Selic seja o juro pago pelo produtor rural.
Não é.
A Selic é apenas a taxa básica da economia.
Quando o dinheiro chega ao campo, ele já incorpora custo de captação, despesas operacionais, margem financeira e, principalmente, o risco da operação.
É aí que a pressão realmente começa.
É aqui que nasce o juro alto
O Banco não empresta dinheiro olhando para o retrovisor.
Empresta olhando para a capacidade futura de pagamento.
Se a rentabilidade diminui, a percepção de risco aumenta.
E quanto maior o risco, maior tende a ser o custo do crédito.
No agronegócio existe um agravante: o clima.
Secas, geadas, excesso de chuvas e outros eventos extremos podem comprometer uma safra inteira.
O papel estratégico do seguro rural
Por isso, o seguro rural deixa de ser apenas uma proteção ao produtor e passa a ser um dos pilares da política agrícola.
Quando existe um sistema de seguro robusto, parte das perdas provocadas pelo clima é absorvida pelas seguradoras. Isso reduz o risco da atividade, aumenta a segurança para quem financia a produção e permite oferecer crédito em condições mais favoráveis.
Os Estados Unidos são um bom exemplo. Mesmo com praticamente toda a área agrícola protegida por um sistema de seguro fortemente apoiado pelo governo, os produtores já enfrentam dificuldades provocadas pelo aumento dos custos e pela redução das margens de rentabilidade.
Se essa preocupação já existe em um país com ampla cobertura securitária, é fácil imaginar o desafio brasileiro, onde o seguro rural ainda alcança apenas uma parcela da produção e grande parte do risco continua nas costas do produtor.
Sem um programa consistente de seguro rural, o crédito tende a ficar mais caro, mais restritivo e mais seletivo.
Fortalecer o seguro rural não significa apenas indenizar perdas provocadas pelo clima. Significa reduzir o risco da atividade, ampliar o acesso ao crédito e criar condições para diminuir, de forma estrutural, o custo do capital no campo.
O círculo que aperta o campo
É exatamente aqui que surge a prensa.
A rentabilidade diminui.
O risco aumenta.
O crédito fica mais caro.
O custo financeiro sobe.
E a rentabilidade diminui novamente.
Forma-se um círculo vicioso que aperta cada vez mais a atividade rural.
A redução da rentabilidade aumenta a percepção de risco. O risco eleva o custo do crédito. Juros mais altos ampliam os custos financeiros e reduzem novamente a rentabilidade do produtor, formando um círculo vicioso que comprime toda a atividade agropecuária.
Como romper esse ciclo
Nenhum setor prospera quando o custo do capital cresce continuamente.
Romper essa dinâmica exige um ambiente econômico mais previsível.
Quando o mercado percebe responsabilidade fiscal, controle das despesas públicas e estabilidade da dívida, as expectativas melhoram.
Com menor percepção de risco, os juros futuros tendem a recuar.
O crédito torna-se mais acessível.
O investimento volta a crescer.
E a pressão sobre o produtor começa, gradualmente, a diminuir.
Ao mesmo tempo, ampliar o seguro rural significa reduzir um dos principais fatores de risco da atividade e criar condições para que o crédito chegue ao campo com menor custo.
Muito além da porteira
O problema do agro brasileiro hoje não é falta de competência dentro da porteira.
É o excesso de custo fora dela.
Os desafios do setor também passam pelo ambiente macroeconômico, pelo mercado financeiro e pela forma como o risco é precificado.
O produtor administra diariamente o clima, o câmbio, os custos, a tecnologia e o mercado.
Mas nenhuma atividade consegue sustentar investimentos por muito tempo quando sua rentabilidade é comprimida e o custo do dinheiro sobe continuamente.
Fortalecer o agronegócio não significa apenas aumentar a produção.
Significa criar condições para que essa produção seja economicamente sustentável.
O fortalecimento do seguro rural, aliado a um ambiente de maior estabilidade fiscal e juros compatíveis com a realidade da produção, deixou de ser apenas uma reivindicação do campo.
Tornou-se uma necessidade estratégica para o Brasil.
Quando o produtor perde capacidade de investir, toda a cadeia sente os efeitos.
A oferta de alimentos torna-se mais vulnerável, os custos aumentam e a inflação chega à mesa do consumidor.
Por isso, proteger a renda de quem produz significa proteger também a segurança alimentar, a estabilidade econômica e a competitividade do agronegócio brasileiro.
Mais do que uma política para o campo, o seguro rural deve ser tratado como um investimento estratégico para o país.
O produtor aprendeu a conviver com o clima.
O que ele não consegue enfrentar sozinho é um ambiente econômico que comprime sua rentabilidade.
Aliviar essa pressão não interessa apenas ao campo. É uma condição para preservar a competitividade do agronegócio e fortalecer a economia brasileira.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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