OPINIÃO

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

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Redação 

 

A Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Cuiabá, é um dos mais importantes símbolos históricos e culturais de Mato Grosso. Fundada em 1730 por comunidades negras escravizadas, tornou-se um espaço de fé e resistência. Sua arquitetura colonial, com altares barroco-rococó em talha dourada e prateada, é única no Brasil. O templo foi tombado pelo IPHAN em 1975, pela Fundação Cultural de Mato Grosso em 1987 e passou a integrar o Centro Histórico de Cuiabá em 1993, consolidando-se como patrimônio material. Além disso, a tradicional Festa de São Benedito, celebrada anualmente, foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial, reforçando o valor simbólico e comunitário da igreja.

 

Em maio de 2022, a igreja foi interditada pela Defesa Civil devido a graves problemas estruturais, como rachaduras, infiltrações, afundamento do piso e ataque de cupins. Desde então, as celebrações religiosas foram transferidas para espaços alternativos, o que impactou diretamente a comunidade e o turismo religioso. A interdição prolongada, que já ultrapassa quatro anos, fragiliza não apenas a preservação física do templo, mas também o vínculo cultural e espiritual da população cuiabana com esse patrimônio.

 

Em 2023, foi aprovado o projeto arquitetônico para a restauração. Todavia, o projeto executivo não avançou por falta de pagamento ao arquiteto. O ex-governador Mauro Mendes, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), comprometeu-se a destinar R$ 800 mil para essa etapa, de um total estimado em cerca de R$ 5 milhões, que seriam captados por meio da Lei Rouanet, com recursos da iniciativa privada.

 

Por outro lado, o Parque Novo Mato Grosso, conhecido como “Parque dos Bilionários”, cujo custo inicial era de R$ 150 milhões, já consumiu R$ 977 milhões e, na melhor das hipóteses, poderá alcançar a cifra de R$ 1,5 bilhão em recursos públicos. O Estado de Mato Grosso não consegue destinar R$ 800 mil para devolver vida à Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; porém, pode retirar do erário R$ 1,5 bilhão para construir um elefante branco. Esse valor corresponde a 1.875 vezes o montante necessário para concluir os projetos de restauração ou, em termos percentuais, representa um gasto 187.400% maior. Posteriormente, o parque ainda poderá ser repassado à iniciativa privada, talvez sob regime de comodato.

 

Caminhos existem. Uma parceria sólida entre a Arquidiocese de Cuiabá, os fiéis e festeiros de São Benedito, os poderes públicos municipal e estadual e a iniciativa privada, por meio da Lei Rouanet, pode ser a solução mais completa para restaurar e preservar um dos maiores símbolos da identidade e da cultura cuiabana e mato-grossense.

 

Talvez os que hoje nos governam queiram repetir o que ocorreu em 1722. Como registrou Barbosa de Sá: “huma capellinha a San Benedito junto ao lugar chamado despois rua do cebo, que dahy a poucos annos cahio e não se levantou mais.”

 

Sérgio Cintra é professor de Linguagens e servidor do TCE-MT.E-mail: sergiocintraprof@gmail.com

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