Imagine uma pirâmide de latinhas empilhadas em um corredor de supermercado. A base parece sólida, mas quanto mais alta fica, mais sensível se torna a qualquer vibração. Na economia mundial, essa pirâmide é construída sobre três pilares: produção, consumo e investimento.
No entanto, o “castelo” que habitamos hoje apresenta sinais claros de fadiga. O risco? A “latinha mestre”, o dólar, está sendo sacudida por uma combinação explosiva de endividamento e instabilidade política.
O endividamento global já atinge US$ 350 trilhões, desafiando a sustentabilidade do sistema financeiro.
A atividade econômica é movida pela geração de riqueza, mas nas últimas décadas, esse crescimento foi erguido sobre uma base frágil: uma dívida global que já atinge US$ 350 trilhões, 350% do PIB mundial.
Os Estados Unidos, o coração desse sistema, sustentam uma atividade robusta, mas ancorada em uma dívida pública que supera os US$ 40 trilhões.
Por muito tempo, essa “pirâmide” se manteve em pé baseada em uma confiança infinita no dólar como porto seguro. Contudo, essa confiança está sendo corroída por dentro.
O atual cenário mostra que a economia não é apenas matemática; é psicologia. A gestão de Donald Trump tem sido um fator de instabilidade para os mercados mundiais e principalmente para a economia americana.
Seu comportamento, muitas vezes visto como errático, oscilando entre anúncios de tarifas agressivas e recuos repentinos, cria um ambiente de incerteza que dificulta o planejamento de empresas e investidores.
Ao utilizar o dólar e o acesso ao mercado americano como ferramentas de pressão geopolítica, a Casa Branca acaba por acelerar o que os analistas chamam de desdolarização.
Se o dólar deixa de ser uma moeda neutra e previsível para se tornar um instrumento de política externa imprevisível, os outros países, liderados pela força produtiva da Ásia, começam a retirar suas latinhas da base da pirâmide americana.
Hoje, mais da metade da população do planeta está na Ásia, o grande polo de desenvolvimento atual. Quando vemos o comércio de petróleo sendo liquidado em outras moedas que não o dólar, estamos presenciando o questionamento do modelo estabelecido desde 1971.
Foi nesse ano que o padrão-ouro foi substituído pela confiança pura na autoridade americana. Para o agronegócio, setor que vive da exportação e da importação de insumos cotados em dólar, essa volatilidade é um desafio constante.
A Ásia consolida-se como o novo eixo econômico, desafiando o modelo de confiança estabelecido desde 1971.
O enfraquecimento da moeda americana, embora possa parecer benéfico em alguns momentos para as importações, reflete uma instabilidade sistêmica que pode encarecer o crédito e desorganizar as cadeias de suprimentos globais.
Um sistema econômico baseado em dívida exige confiança mútua. No momento em que a principal potência mundial adota uma postura de confronto e imprevisibilidade, ela retira a “cola” que mantinha as latinhas no lugar.
O risco não é apenas a queda de uma moeda, mas o desmoronamento de uma arquitetur financeira que já não suporta o peso da própria dívida sob o vento forte da incerteza política.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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