O julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a Moratória da Soja resolveu uma controvérsia constitucional, mas abriu uma questão ainda mais relevante para o ambiente de negócios: uma iniciativa pode ser juridicamente válida e, ao mesmo tempo, enfrentar desincentivos produzidos pelo próprio ambiente regulatório.
Ao reconhecer a constitucionalidade da Moratória e, simultaneamente, validar leis estaduais que restringem benefícios fiscais a empresas participantes de acordos privados com exigências ambientais superiores às previstas em lei, o STF preservou a autonomia das empresas para definir critérios próprios de compra e a autonomia dos estados para estabelecer condições para a concessão de incentivos fiscais.
O debate, portanto, deixou de ser apenas jurídico. Na prática, empresas continuam livres para adotar compromissos ambientais voluntários. Ao mesmo tempo, os estados mantêm competência para estruturar suas próprias políticas de incentivo. É justamente nessa sobreposição que surge o principal desafio regulatório.
Regulação não se resume a definir o que é permitido ou proibido. Ela também organiza incentivos e influencia decisões empresariais. Quando diferentes instrumentos regulatórios apontam para direções distintas, aumenta a incerteza para quem precisa tomar decisões de longo prazo. E onde há incerteza, não há ambiente favorável para investimentos.
No agronegócio, esse desafio tende a crescer. Critérios ambientais, rastreabilidade, exigências de compradores internacionais e compromissos privados de sustentabilidade já fazem parte das cadeias globais e não podem ser ignorados. Ao mesmo tempo, estados produtores buscam preservar competitividade, arrecadação e autonomia sobre suas políticas de desenvolvimento.
A questão central passa a ser como compatibilizar essas diferentes camadas de exigências sem transformar cada avanço regulatório em um novo conflito entre empresas, produtores e poder público.
O julgamento do STF trouxe clareza sobre a constitucionalidade da Moratória da Soja e sobre a competência dos estados. Mas segurança jurídica exige previsibilidade sobre os efeitos que as normas produzem. Se uma prática é legal, mas o ambiente regulatório cria incentivos contraditórios para sua adoção, o problema já não está apenas na norma. Está no desenho institucional que orienta as decisões econômicas, sobretudo diante de um mercado importador cada vez mais exigente.
Nesse sentido, o desafio que permanece e a pergunta que fica é: como construir um ambiente em que sustentabilidade, competitividade e segurança jurídica possam coexistir dentro de uma política regulatória coerente e previsível?
*Karina Tiezzi é gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais. Atuou como assessora legislativa na Câmara dos Deputados, participou da tramitação de proposições de destaque para o agronegócio, como a chamada MP do Agro e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental
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