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El Niño pode agravar crise no agro e aumentar o endividamento rural, alerta especialista

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A confirmação de um novo episódio de El Niño acende um sinal de alerta para o agronegócio brasileiro em um momento de fragilidade financeira no campo. Além dos impactos esperados sobre o clima, como excesso de chuvas em algumas regiões e estiagens em outras, o fenômeno pode ampliar os desafios enfrentados pelos produtores rurais, que já convivem com margens apertadas, juros elevados e aumento do endividamento.

Em entrevista ao Mercado & Cia, o advogado especialista em reestruturação empresarial Felipe Denk afirmou que o El Niño tende a atingir justamente um setor que já perdeu capacidade de absorver novos choques econômicos.

Segundo ele, nos últimos anos os produtores enfrentaram uma combinação de alta dos custos de produção, impulsionada, entre outros fatores, pela guerra entre Rússia e Ucrânia, importantes fornecedores mundiais de fertilizantes , e queda nos preços de diversas commodities agrícolas, como soja, milho, arroz, feijão e boi gordo.

“Com as margens cada vez mais apertadas, a chegada do El Niño pode prolongar períodos de estiagem em algumas regiões, atrasar o plantio, reduzir a produtividade e até inviabilizar a segunda safra em determinadas áreas”, afirmou.

Crise vai além do clima

Para Denk, o aumento dos pedidos de recuperação judicial no campo reflete uma crise estrutural do agronegócio brasileiro, e não apenas os efeitos de eventos climáticos extremos.

Na avaliação do especialista, o clima funciona como um fator que acelera problemas já existentes, como o crescimento do endividamento rural e a forte dependência de crédito.

“Houve uma expansão dos financiamentos sem uma análise adequada do risco de crédito. Ao mesmo tempo, o produtor passou a depender cada vez mais de recursos públicos, instituições financeiras e crédito privado para manter a atividade”, afirmou.

Segundo ele, embora eventos climáticos como o El Niño ocorram de forma recorrente, eles não devem ser vistos como a única causa das dificuldades enfrentadas pelo setor.

Seguro rural ainda enfrenta barreiras

O especialista também destacou que o seguro rural e o planejamento financeiro são ferramentas essenciais para reduzir riscos, mas ainda encontram obstáculos, principalmente entre pequenos e médios produtores.

De acordo com Denk, um dos principais desafios é o momento em que o seguro precisa ser contratado. O pagamento ocorre justamente na época do plantio, quando o caixa do produtor já está pressionado pelos gastos com insumos, frete e juros.

Outro problema é a limitação dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), cujo orçamento, segundo ele, historicamente não acompanha a demanda da área agrícola brasileira.

Além disso, o advogado aponta a falta de planejamento financeiro estruturado nas propriedades rurais.

“Muitos pequenos e médios produtores não trabalham com fluxo de caixa estruturado, proteção cambial ou mecanismos de trava de preços. Essa ausência de gestão reduz a capacidade de enfrentar momentos de maior instabilidade”, avaliou.

Planejamento ganha importância para a safra 2026/27

Com a perspectiva de um novo episódio de El Niño durante a safra 2026/27, Denk reforça que a gestão financeira e as estratégias de proteção passam a ser tão importantes quanto o manejo da lavoura.

Na avaliação do especialista, o cenário exige maior atenção de produtores, instituições financeiras e formuladores de políticas públicas para reduzir os impactos de uma conjuntura que reúne riscos climáticos e dificuldades econômicas.

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