A valorização do arroz trouxe novo ânimo aos produtores do Rio Grande do Sul às vésperas do plantio da safra 2026/27. A saca de 50 quilos encerrou a semana cotada, em média, a R$ 82,85 no Estado, alta de 33,3% em 12 meses. Em Pelotas e no Litoral Sul, negócios pontuais chegaram a valores entre R$ 88 e R$ 90.
A recuperação ocorre em um momento decisivo para o principal Estado produtor do país. O Rio Grande do Sul colhe cerca de 7,5 milhões de toneladas de arroz por safra e responde por aproximadamente 70% da produção brasileira. O desempenho das lavouras gaúchas, portanto, interfere diretamente no abastecimento nacional e na formação dos preços pagos ao produtor e pelo consumidor.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, o Brasil produziu 11,08 milhões de toneladas de arroz na safra 2025/26, retração de 13,2% em relação ao ciclo anterior. A queda foi provocada principalmente pela redução de 14% na área plantada, que ficou em 1,52 milhão de hectares, depois de um período de preços pouco remuneradores no campo.
A produtividade média nacional aumentou 1%, para 7.303 quilos por hectare, mas não foi suficiente para compensar a menor área. No Rio Grande do Sul, parte das terras tradicionalmente ocupadas pelo arroz foi direcionada para soja ou pastagens, movimento provocado pela diferença de rentabilidade entre as atividades.
A alta recente muda parte desse cenário. Em uma semana, o indicador do arroz em casca avançou 1,58%. Na comparação com o mesmo período do mês anterior, o ganho chegou a 8,23%. A recuperação melhora a perspectiva de receita e pode reduzir a saída de áreas da cultura, embora os valores mais elevados ainda não sejam praticados de maneira uniforme.
Os negócios entre R$ 88 e R$ 90 estão concentrados em lotes com condições específicas de qualidade, rendimento industrial, localização e entrega. Produtos com maior percentual de grãos inteiros ou armazenados mais próximos das unidades beneficiadoras tendem a alcançar preços superiores.
A firmeza também é favorecida pela postura mais cautelosa dos produtores na comercialização. Depois de enfrentar preços baixos, parte dos agricultores evita antecipar vendas e aguarda referências capazes de cobrir os custos da propriedade e recuperar margens perdidas nas últimas safras.
O mercado externo, porém, ainda não sustenta sozinho a valorização. A programação de exportações permanece reduzida, enquanto as importações aumentaram e ampliaram a disponibilidade de produto no país. A entrada de arroz estrangeiro limita movimentos mais intensos de alta, principalmente quando o cereal chega beneficiado e pronto para disputar espaço no varejo.
Quando a importação envolve arroz em casca, a concorrência alcança também a indústria, que passa a contar com uma alternativa à matéria-prima produzida no Brasil. A intensidade desse efeito depende do volume adquirido, da qualidade, do custo de transporte e do momento de chegada do produto.
Se a melhora dos preços ajuda a recompor as expectativas, a dificuldade para encontrar óleo diesel acrescenta incerteza ao início da nova safra. Produtores da Metade Sul e do Vale do Rio Pardo relatam atrasos nas entregas e aumento dos valores justamente quando as máquinas começam a entrar nas áreas de arroz.
O combustível é indispensável para o preparo e a sistematização do solo, a semeadura, as aplicações e o transporte dentro das propriedades. No arroz irrigado, a concentração dessas operações em uma janela limitada torna a regularidade do abastecimento especialmente importante.
Há relatos de compras realizadas inicialmente por R$ 5,74 o litro, seguidas por ofertas a R$ 6,56 e, depois, a R$ 7,18. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis informou que o preço médio do diesel S10 no país chegou a R$ 7,13 por litro, alta de 2,3% na semana e maior valor desde maio.
Mesmo sem confirmação de desabastecimento nacional, as dificuldades regionais podem provocar efeitos concretos. O combustível pode estar disponível no sistema, mas chegar com atraso ou em quantidade insuficiente ao produtor que depende de compras imediatas para aproveitar as condições de plantio.
A elevação dos preços também pressiona a margem proporcionada pela recuperação do arroz. Cálculo do setor indica que uma alta de 21,1% no diesel S10 pode acrescentar R$ 612,2 milhões aos custos das operações mecanizadas das principais lavouras gaúchas. Em um cenário extremo, com o litro a R$ 9, o impacto poderia alcançar R$ 1,47 bilhão.
O custo não termina na lavoura. O diesel mais caro afeta o transporte de sementes, fertilizantes e defensivos, além da movimentação do arroz entre as propriedades, armazéns, beneficiadoras e centros consumidores.
A combinação entre preços melhores para o cereal e custos crescentes torna o início da safra um período de decisões cuidadosas. A valorização de 33,3% em um ano oferece uma perspectiva mais favorável ao produtor, mas sua conversão em renda dependerá da produtividade, da regularidade do abastecimento de combustível e da capacidade de controlar as despesas.
Para o arroz brasileiro, o que ocorrer no Rio Grande do Sul será determinante. Se os produtores conseguirem plantar dentro da janela recomendada e mantiverem a produtividade, o Estado poderá preservar o abastecimento nacional e aproveitar a recuperação do mercado. Caso a falta de diesel atrase as operações, parte do ganho obtido com a alta dos preços poderá ser consumida antes mesmo de a nova lavoura estar estabelecida.