AGRICULTURA
Irmãs deixam carreiras para assumir negócios da família e investir na criação de 200 mil aves
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2 meses agoon

Há quase cinco décadas, a família Cenci deixou o Rio Grande do Sul em direção ao Cerrado do Distrito Federal para produzir grãos em uma região que ainda dava os primeiros passos na agricultura. O trabalho iniciado em 1977 atravessou gerações, incorporou a avicultura e, agora, vive uma nova etapa: duas irmãs assumiram a gestão das atividades construídas pelo pai.
Kellen e Catiusa representam a terceira geração da família ligada ao campo. Com trajetórias profissionais fora da propriedade e formações diferentes, elas passaram a dividir responsabilidades na administração do negócio, que reúne agricultura e uma granja com capacidade para alojar entre 200 mil e 220 mil aves.
Mais do que uma troca de comando, a sucessão trouxe mudanças na gestão, investimentos, tecnologia e uma divisão de funções baseada na experiência profissional de cada irmã.
Uma história que começou no Cerrado em 1977
A trajetória da família na região começou com o pai das produtoras, Derci Cenci. Em 1977, ele deixou o Rio Grande do Sul acompanhado de familiares para conhecer as oportunidades de produção agrícola no Centro-Oeste.
Segundo o relato da família, o movimento ocorreu em um período de incentivo à expansão da agricultura no Cerrado. O cenário encontrado era diferente da estrutura produtiva atual: faltavam máquinas, infraestrutura e até moradia nas áreas que começavam a ser abertas.
“Eles não tinham trator, não tinham maquinário, era trabalho braçal, não tinha onde morar”, relembra uma das filhas.
A relação das irmãs com o meio rural, porém, começou antes de elas assumirem qualquer responsabilidade no negócio. Nascidas em Putinga, no Vale do Taquari (RS), elas cresceram próximas da produção agropecuária.
Uma delas recorda uma infância marcada pelo contato com animais e pelas atividades no campo.
“Tirava leite da vaca, ajudava a fazer colheita de frutas ou de milho, brincava com as galinhas.”
Mesmo com essa ligação, assumir a atividade rural não foi o primeiro caminho profissional escolhido pelas duas.
Carreiras construídas longe da gestão da fazenda
Antes de entrar definitivamente no negócio familiar, as irmãs construíram carreiras em outras áreas.
Uma delas se formou em Educação Física e trabalhou por cerca de dez anos na profissão. Paralelamente, aproveitava parte do dia para acompanhar o pai na fazenda e ajudar na administração. A mudança ganhou força em 2020, durante a pandemia.
A outra irmã seguiu um caminho ligado às áreas jurídica e pública. Estudou Relações Internacionais e Direito e trabalhou durante 12 anos no Judiciário.
Foi justamente a formação jurídica que começou a aproximá-la novamente dos negócios da família.
À medida que a legislação ambiental e tributária avançava e a idade do pai aumentava, cresceram também as demandas relacionadas à documentação e à regularização das propriedades.
“Você mora na cidade, me ajuda a resolver isso, me ajuda a resolver aquilo”, lembra sobre os pedidos feitos pelo pai.
A participação, inicialmente pontual, aumentou. E com ela surgiram os primeiros embates entre a maneira como a propriedade havia sido conduzida durante décadas e as novas exigências enfrentadas pelo negócio.
“Pai, agora tem que ser desta forma. […] Ele falava: ‘Mas eu sempre fiz assim’. Eu falei: ‘Mas agora não pode mais ser feito assim. Mudou. A exigência é outra, os tempos são outros’.”
O diálogo envolvia adequação ambiental, documentação, fiscalização e outras obrigações que passaram a fazer parte da rotina das propriedades rurais.“Foi a melhor decisão que eu fiz”
Com o aumento da demanda, chegou o momento de escolher entre a carreira no serviço público e a dedicação integral ao patrimônio construído pela família.
O convite veio do próprio pai: era preciso dar continuidade ao negócio. A decisão significava deixar uma carreira pela qual havia trabalhado durante anos. Ainda assim, segundo ela, a necessidade da família falou mais alto.
“Em momento algum eu me arrependo. Foi a melhor decisão que eu fiz.”
Hoje, ela afirma que o trabalho permitiu avançar na regularização do patrimônio e estruturar uma administração que possa continuar pelas próximas gerações.
“Eu e a minha irmã juntas tomamos decisões. Em momento algum a gente teve conflito em relação a isso”, relata. E acrescenta: “Me arrependo de não ter assumido antes”.
Avicultura abre novo capítulo
Se a produção de grãos marcou o início da trajetória da família no Cerrado, a avicultura acrescentou uma nova frente ao negócio.
A granja tem cerca de 30 anos e é formada por dois núcleos, um com quatro aviários e outro com cinco. Dependendo da densidade utilizada em cada período, a propriedade aloja entre 200 mil e 220 mil aves.
A propriedade também participa de um projeto voltado ao controle de salmonela. Segundo o profissional que acompanha a granja, medidas como tratamento da cama e adoção de requisitos de manejo ajudaram a reduzir os índices registrados nas propriedades participantes.
De acordo com o relato apresentado no programa, os níveis, que anteriormente variavam entre 40% e 60%, passaram para uma faixa entre 5% e 8%. O trabalho coincidiu com o processo de sucessão familiar.
As novas gestoras visitaram propriedades que já haviam passado pela troca de gerações para conhecer dificuldades, soluções e modelos que poderiam ser aplicados à realidade da família.
“Eu acabei pegando elas, levando em outras propriedades que já tinham feito essa transição de sucessão familiar, mostrar para elas […] quais são os problemas que elas iam encontrar. E daí a gente foi replicando isso aqui na propriedade”, conta o profissional que acompanhou o processo.
O planejamento foi acompanhado de investimentos na granja e de mudanças na gestão.
Tecnologia permite acompanhar a fazenda à distância
Com duas gestoras e diferentes frentes de produção, a divisão das funções tornou-se parte da estratégia.
Uma das irmãs concentra atividades administrativas, financeiras e de planejamento, incluindo decisões sobre investimentos. O trabalho é realizado principalmente em um escritório em Brasília, com visitas à granja conforme a demanda.
A distância não significa falta de acompanhamento.
Sistemas de câmeras e monitoramento permitem observar operações realizadas na propriedade mesmo quando as gestoras não estão no local. A tecnologia também facilita a manutenção dos equipamentos.
“Se eu quero ver um carregamento que eu não estou aqui no dia […] eu consigo monitorar as câmeras”, explica.
A outra irmã, que permanece mais próxima da propriedade, acompanha funcionários, compras e outras necessidades da operação no campo.
A divisão também aproveita a formação profissional de cada uma. Questões burocráticas, processos e contatos com assessorias ficam concentrados em uma das gestoras, enquanto a outra assume demandas que exigem presença física na região.
Grãos e aves dentro do mesmo sistema
A família também busca integrar as duas principais atividades da propriedade.
A cama retirada dos aviários é aproveitada como adubo nas áreas agrícolas. Dessa forma, um resíduo gerado pela produção de aves retorna ao sistema de produção de grãos.
“Nós conseguimos também interligar a parte da avicultura com a produção de grãos. Quando nós retiramos a cama de frango […] nós utilizamos também para o plantio, para adubar a terra, e isso tem dado um bom resultado”, relata uma das produtoras.
Na granja, os investimentos também são direcionados ao manejo, à biossegurança, ao bem-estar animal e à modernização dos equipamentos.
Para uma das irmãs, acompanhar a evolução tecnológica deixou de ser uma escolha.
“Hoje tem muita tecnologia, então, se a gente não investir, se a gente não for buscar por isso, o resultado também não é bom.”
Ela cita como exemplo os equipamentos utilizados no manejo da cama dos aviários. A avaliação é de que máquinas adequadas interferem nas condições oferecidas aos animais e, consequentemente, no resultado dos lotes.
Produzir alimentos aproxima novas gerações do campo
A sucessão iniciada pelas duas irmãs também levanta uma questão que deverá ser respondida no futuro: haverá uma quarta geração da família à frente do negócio?
Uma delas conta que as próprias filhas já começam a estabelecer uma relação com a atividade rural ao reconhecerem nos supermercados os alimentos ligados à produção da família.
Ao encontrar produtos de frango, uma das crianças associa o alimento ao trabalho da mãe.
“Olha, mamãe, o seu frango que estava lá”, relembra a produtora.
A resposta procura colocar a filha dentro dessa história: “Sim, filha, é o seu também. Se você cuidar, futuramente, você também vai produzir o frango para alimentar”.
A relação se repete com os grãos. Segundo a produtora, as crianças também explicam aos colegas da cidade como os alimentos são produzidos e levam para a escola discussões sobre a realidade das propriedades rurais.
O desafio de manter o legado
Depois de uma trajetória que começou com a abertura do Cerrado, passou pela consolidação da agricultura e incorporou a avicultura, a família agora planeja os próximos passos.
Entre os projetos está a possibilidade de ampliar a estrutura com novos aviários. A decisão ainda dependerá das condições futuras do negócio, mas as irmãs dizem que pretendem continuar investindo na atividade.
Para elas, sucessão não significa apenas preservar patrimônio. A continuidade envolve manter princípios associados à trajetória do pai e, ao mesmo tempo, adaptar a propriedade às novas exigências da produção.
“O legado que eu espero é dar continuidade aos ensinamentos que meu pai deixou, aos princípios, ser pessoa simples, humilde, mas trabalhadora e reconhecer todo o esforço que ele fez”, afirma uma das irmãs.
Ao olhar para as filhas, elas já começam a pensar no próximo capítulo.
“Temos filhas e pretendemos também que futuramente elas sigam, mantenham essa tradição da família.”
Quase 50 anos depois da chegada ao Cerrado, o processo que começou com uma geração abrindo terras para a agricultura agora passa pelas mãos das filhas, e já coloca no horizonte a possibilidade de continuidade com as netas.
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