El Niño já mostrou seus primeiros efeitos no Rio Grande do Sul. (Imagens: Reprodução/Marcel Oliveira)
O fenômeno El Niño mantém o Rio Grande do Sul em alerta para o aumento das chuvas e a possibilidade de novos eventos extremos. Após temporais, granizo e o tornado que atingiu municípios do noroeste gaúcho nas últimas semanas, produtores rurais e autoridades reforçam a preocupação com os impactos no campo e na economia dos municípios.
O fenômeno, que costuma favorecer volumes maiores de chuva na região Sul, já mostrou seus primeiros efeitos no estado. Em propriedades rurais, os danos vão desde estruturas destruídas até perdas em lavouras de inverno, que enfrentam excesso de umidade e dificuldade de desenvolvimento.
Na região de Giruá, no noroeste do estado, a família Matos, que trabalha com produção de leite, lavoura e suinocultura, sente os efeitos de uma sequência de anos marcados por dificuldades climáticas e de mercado.
“Quando tu pensa que vai dar um pulo, que vai melhorar, vem outro ano e o clima judia de novo”, relata o produtor rural Valdir de Matos. Segundo ele, culturas como o trigo enfrentam problemas com excesso de chuva, pouca incidência de sol e preços que não cobrem os custos de produção.
Além dos impactos climáticos, a queda na rentabilidade também preocupa o setor. Para produtores, a combinação de perdas sucessivas e preços desfavoráveis tem aumentado o endividamento rural e reduzido a capacidade de investimento.
Granizo provoca perdas em lavouras de canola
Os temporais recentes também deixaram prejuízos em lavouras de inverno. Em Não-Me-Toque (RS), a canola foi uma das culturas mais afetadas pelo granizo.
Segundo produtores, áreas que estavam em estágio avançado de desenvolvimento, principalmente em floração, tiveram perda total. Apenas no município, mais de 1,6 mil hectares foram atingidos.
A cultura vinha ganhando espaço no estado como alternativa ao trigo, com potencial de rentabilidade e diversificação para os produtores. No entanto, os danos causados pelo clima comprometeram parte da produção.
Outras culturas de inverno também foram afetadas pelo excesso de chuva e pela falta de períodos adequados de sol.
Prejuízos da enchente de 2024 ainda pesam
Apesar de a ocorrência de El Niño não significar, necessariamente, uma repetição da enchente histórica registrada em 2024, o cenário preocupa porque muitas áreas ainda não se recuperaram completamente.
Na época, os prejuízos apenas na agropecuária gaúcha foram estimados em mais de R$ 2 bilhões. Municípios ainda trabalham na recuperação de estradas e estruturas afetadas pelos eventos extremos.
De acordo com a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), a preocupação vai além das perdas diretas nas propriedades. A dificuldade de recuperação da infraestrutura pode comprometer o escoamento da produção.
“Se não tiver estrada, não tem como transportar a soja, o leite, enfim, aquilo que é diário”, destacou o assessor técnico de Agricultura da entidade, Ismael Horback.
O presidente do Sindicato Rural de Giruá, Luiz Fernando Desbessel, afirma que a sequência de adversidades climáticas tem afetado a renda dos produtores e, consequentemente, movimentado menos a economia local.
“Quando o agricultor não tem renda, reflete no comércio, nas cooperativas, diminui o investimento”, afirmou.
Estado reforça preparação para eventos extremos
Diante da possibilidade de novos episódios de chuva intensa, o governo do Rio Grande do Sul lançou, em junho, o programa Prepara RS – El Niño, com ações voltadas à prevenção, mitigação e preparação para desastres.
A iniciativa prevê integração entre órgãos estaduais e municípios, além do acompanhamento de alertas climáticos.
Segundo o governador Eduardo Leite, o estado ampliou a estrutura de monitoramento e passou a contar com planos de contingência em todos os municípios gaúchos.
“Saímos de 60 municípios com planos de contingência para 497 municípios com planos acompanhados pela Defesa Civil do Estado”, afirmou.
A expectativa é que o reforço na preparação ajude a reduzir os impactos de possíveis novos eventos extremos, especialmente em regiões rurais, onde o clima tem sido um dos principais desafios para a manutenção das atividades produtivas.