AGRICULTURA
Renegociação das dívidas rurais: solução estrutural ou novo adiamento?
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3 meses agoon

A publicação da medida provisória (MP) nº 1.376, em 15 de julho de 2026, trouxe uma resposta esperada por produtores rurais afetados por perdas climáticas, queda dos preços e aumento dos custos de produção. A medida pode contribuir para imediata recuperação da capacidade de financiamento do setor, mas não elimina a questão central: a renegociação resolve o problema ou apenas transfere seus efeitos para os próximos ciclos?
Em síntese, a MP autoriza a criação de linhas de crédito destinadas à liquidação ou amortização de operações rurais e de determinadas Cédulas de Produto Rural (CPRs). A estimativa é de que mais de R$ 100 bilhões em dívidas possam ser alcançados, com impacto anual inferior a R$ 4 bilhões nas contas públicas.
Poderão acessar as condições produtores e cooperativas que tenham registrado perdas relevantes em pelo menos duas safras entre 2019 e 2025. As taxas variam entre 5% e 12% ao ano, conforme o perfil do beneficiário e a intensidade das perdas, com prazos que podem chegar a dez anos.
A medida é importante porque o endividamento não compromete apenas o pagamento de obrigações anteriores. Ele restringe o acesso ao crédito, reduz investimentos e ameaça a continuidade de atividades produtivas que permanecem economicamente viáveis, mas perderam liquidez após sucessivas adversidades. A renegociação, portanto, pode evitar que dificuldades conjunturais provoquem a exclusão permanente de produtores do sistema financeiro.
Assim, seu alcance dependerá menos dos valores anunciados e mais da forma como será implementada, sendo que os bancos não são obrigados a aderir às renegociações e a oferta da linha de crédito dependerá de suas políticas internas de crédito, o que provoca mais um gargalo ao programa.
Vale ressaltar que parte das regras também dependerá de regulamentação.
Nesse ínterim, o Ministério da Fazenda publicou na semana passada a resolução CMN nº 5.330/2026, que autoriza as instituições financeiras, se assim desejarem, a contratar linha de crédito rural para composição de dívidas rurais nos termos da MP.
Essa e portarias vindouras determinarão a eficácia da medida. A depender de como forem editadas, existe um potencial de que criem uma distância entre o público formalmente elegível e aquele que, de fato, conseguirá contratar as novas linhas. Esse é um ponto sensível da medida. Critérios complexos ousinterpretações divergentes podem atrasar as operações e reduzir sua efetividade. Ao mesmo tempo, regras pouco objetivas aumentam a insegurança jurídica e dificultam a aplicação uniforme da política.
A tramitação no Congresso e a regulamentação posterior serão, por isso, tão relevantes quanto a edição da própria MP. O texto ainda poderá ser alterado, e detalhes relacionados às garantias, aos procedimentos e à operacionalização terão impacto direto sobre o resultado.
A construção da medida também evidencia a importância da articulação institucional entre governo, parlamentares, setor produtivo e sistema financeiro.
A solução apresentada tenta conciliar a urgência enfrentada no campo com os limites fiscais do Estado e a necessidade de preservar critérios mínimos de risco.
Não por acaso, o endividamento rural tornou-se uma das principais prioridades da agenda política do agronegócio. O aumento da inadimplência, impulsionado principalmente pelos eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos — com destaque para a região Sul — intensificou a pressão por uma resposta coordenada dos poderes Executivo e Legislativo.
Nesse aspecto, a MP representa uma inflexão relevante no debate. Diferentemente do projeto de lei nº 5.122/2023, que previa uma securitização obrigatória e ampla das dívidas, a medida preserva a análise individualizada das operações. A comprovação das perdas, a avaliação das garantias e a análise de risco permanecem sob responsabilidade das instituições financeiras, preservando critérios prudenciais e reduzindo potenciais impactos fiscais. Sob esse prisma, a edição da MP fortalece a posição da equipe econômica do governo, que resistia às propostas de socialização irrestrita dos riscos do crédito rural.
Ainda assim, a renegociação não enfrenta a origem do problema. A repetição de secas, enchentes, oscilações de preços e perdas de renda mostra que o crédito rural brasileiro continua excessivamente dependente de respostas emergenciais.
Sem seguro rural com recursos previsíveis, proteção de renda e instrumentos adequados de gestão de riscos, novas renegociações continuarão sendo necessárias. O resultado será a sucessiva transferência de passivos, sem redução efetiva da vulnerabilidade do produtor.
O seguro rural não elimina situações excepcionais, mas reduz sua frequência e seu impacto. Também oferece maior previsibilidade ao produtor, às instituições financeiras e ao próprio governo. Sem previsibilidade e segurança, a tendência natural é se investir menos.
A MP nº 1.376/2026 pode representar um importante alívio financeiro e permitir que parte significativa dos produtores retome sua capacidade de financiamento. Seus efeitos, contudo, serão inevitavelmente limitados se não forem acompanhados de uma política permanente de adaptação às mudanças
climáticas e de fortalecimento dos instrumentos de gestão de risco — especialmente em um contexto de previsão de novos eventos climáticos severos associados, por exemplo, ao fenômeno El Niño.
Em última análise, a medida provisória oferece uma resposta necessária, mas ainda insuficiente. Sem uma política de Estado voltada ao fortalecimento estrutural do crédito rural — baseada em seguro rural robusto, gestão de riscos e previsibilidade orçamentária — o país continuará alternando ciclos de endividamento e renegociação.
Mais do que administrar crises, a política agrícola brasileira precisa ser capaz de preveni-las. Enquanto o sistema continuar respondendo aos efeitos, e não às causas, a renegociação das dívidas será apenas o capítulo mais recente de uma história que insiste em se repetir. A verdadeira solução para o crédito rural, portanto, não está na recorrência de medidas emergenciais, mas na construção de um sistema capaz de reduzir a vulnerabilidade do produtor e evitar que novas renegociações se tornem inevitáveis.
*Karina Tiezzi é gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais. Atuou como assessora legislativa na Câmara dos Deputados, participou da tramitação de proposições de destaque para o agronegócio, como a chamada MP do Agro e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental
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