AGRICULTURA
O Brasil está sob ataque! É hora de união nacional
Published
3 meses agoon

O Brasil voltou ao centro da ofensiva comercial do governo Donald Trump. Depois de uma sequência de tarifas, recuos judiciais e novas investigações, produtos brasileiros passaram a enfrentar uma cobrança de 25% nos Estados Unidos.
Outra tarifa, de 12,5%, ainda pode ser acrescentada sob a alegação de utilização de trabalho forçado. Se as duas medidas forem acumuladas, a taxação poderá chegar a 37,5%.
Não se trata apenas de mais uma divergência comercial. Estamos diante de uma estratégia de pressão econômica sobre um país que ampliou seus parceiros, diversificou suas exportações e passou a depender menos do mercado norte-americano.
A cronologia mostra que a ofensiva não surgiu de uma única decisão. Ela foi construída em etapas. Quando uma base legal foi derrubada pela Justiça estadunidense, o governo Trump procurou outro instrumento para reconstruir a mesma barreira. Muda a justificativa jurídica. Permanece o objetivo político.
A conta pode chegar a 37,5%
A tarifa de 25%, somada aos possíveis 12,5%, poderá resultar em uma taxação total de 37,5% sobre parte das exportações brasileiras. É um patamar próximo dos 50% impostos em 2025 e posteriormente derrubados pela Justiça dos Estados Unidos.
O resultado é a criação de uma barreira capaz de retirar competitividade dos produtos brasileiros, reduzir encomendas, atingir empregos e comprometer investimentos.
Não se trata apenas de vender menos aos Estados Unidos. Trata-se de aumentar o custo de acesso ao mercado que mais consome no mundo.
Os impactos também tendem a ser desiguais dentro do próprio Brasil. Estados como São Paulo, Santa Catarina e Paraná, que concentram parcela importante das exportações brasileiras de maior valor agregado destinadas ao mercado norte-americano, poderão sentir os efeitos de forma mais intensa.
São bens industriais, máquinas, equipamentos, produtos químicos, autopeças e manufaturados que geram empregos qualificados, renda e arrecadação. Por isso, os efeitos das tarifas ultrapassam o comércio exterior e alcançam diretamente a atividade econômica desses estados.
Justificativa econômica não se sustenta
A investigação dos Estados Unidos afirma que o Brasil concederia tratamento preferencial a parceiros como México e Índia. Esse argumento ignora dois fatos fundamentais.
O primeiro é jurídico. O Brasil integra o Mercosul e está vinculado a um conjunto de acordos internacionais que disciplinam sua política comercial. Assim, qualquer concessão tarifária relevante depende das regras do bloco e não pode ser feita unilateralmente para atender à pressão de um único país sem ferir compromissos assumidos com os demais integrantes.
O segundo é econômico. Os Estados Unidos mantêm superávit na corrente de comércio com o Brasil. Em outras palavras, vendem mais aos brasileiros do que compram do Brasil.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: negociar o quê? Se o Brasil já registra déficit nessa relação comercial, não havia uma concessão econômica capaz de alterar substancialmente esse quadro.
Restaria apenas negociar aquilo que um país soberano não negocia: sua autonomia para definir sua política externa, seus parceiros comerciais e seus interesses nacionais. A nossa soberania, isso não.
É justamente por isso que essa disputa deixa de ser apenas comercial e passa a assumir um claro componente geopolítico.
Exceções revelam a verdade
A própria lista de produtos poupados das tarifas ajuda a compreender a estratégia de Trump. Café, carne bovina, suco de laranja, cacau, castanhas, minério de ferro, celulose, petróleo, aeronaves civis e ferro-gusa aparecem entre os itens protegidos ou parcialmente excluídos.
São produtos dos quais a economia norte-americana precisa. Os Estados Unidos não conseguem produzi-los internamente em volume suficiente ou dependem do fornecimento brasileiro para manter suas cadeias produtivas funcionando.
Por isso, Trump tarifa aquilo que pode, mas procura preservar o que poderia provocar inflação, desabastecimento ou aumento expressivo dos custos dentro dos próprios Estados Unidos.
As exceções demonstram que a medida não segue apenas critérios comerciais. Segue a conveniência política e estratégica americana.
O alvo é a autonomia brasileira
Nas últimas décadas, o Brasil ampliou fortemente suas relações comerciais com a Ásia, o Oriente Médio, a América Latina e a África.
A China tornou-se o principal destino das exportações brasileiras. A Índia ganhou importância. Outros mercados passaram a absorver produtos industriais e agropecuários antes concentrados em poucos compradores.
Essa diversificação é positiva para o Brasil, mas reduz a influência dos Estados Unidos sobre as decisões brasileiras. O tarifaço deve ser interpretado dentro desse contexto.
Trump procura recolocar o Brasil sob a órbita prioritária de Washington, limitando sua aproximação com outras potências e dificultando a construção de uma política externa mais independente.
Não é apenas uma discussão sobre tarifas. É uma disputa sobre alinhamento, influência e poder.
O agro também paga a conta
Parte importante dos produtos agropecuários brasileiros foi poupada. Isso não significa que o campo esteja protegido dos efeitos da disputa. A instabilidade comercial afeta preços, investimentos, crédito, câmbio, logística e decisões de produção.
Máquinas, equipamentos e tecnologias importadas podem ficar mais caros. Empresas ligadas ao setor podem rever projetos. O risco aumenta, e o custo do dinheiro acompanha esse movimento.
Além disso, tarifas podem desorganizar os fluxos internacionais de mercadorias, provocar redirecionamento de produtos e ampliar a volatilidade das commodities.
Mesmo quando a cobrança não atinge diretamente o produtor, seus efeitos acabam percorrendo toda a cadeia.
Resposta exige firmeza e prudência
O Brasil possui instrumentos para reagir, entre eles a Lei de Reciprocidade Econômica e os mecanismos de contestação da Organização Mundial do Comércio. Mas uma eventual retaliação precisa ser cuidadosamente calculada.
O objetivo não deve ser ampliar o conflito nem impor custos adicionais ao consumidor e ao produtor brasileiro. A resposta precisa atingir setores estratégicos, preservar os interesses nacionais e manter aberto o espaço para a negociação.
O Brasil não pode demonstrar submissão. Também não deve agir por impulso. Firmeza não significa imprudência.
O debate ultrapassa partidos, governos e disputas eleitorais. O produtor rural, o industrial, o exportador e o trabalhador brasileiro não são responsáveis pelas decisões do governo norte-americano.
O Brasil está sendo pressionado porque ampliou sua presença internacional, diversificou mercados e passou a exercer maior autonomia. Nossas divergências internas não podem ser transformadas em vantagem para quem tenta enfraquecer o país externamente.
É possível criticar o governo brasileiro e, ao mesmo tempo, defender os interesses do Brasil. Uma coisa não elimina a outra. Quando um país é alvo de uma pressão externa, governo e oposição continuam tendo diferenças. Mas, acima delas, existe algo maior: o interesse nacional.
O Brasil pode divergir internamente. O que não pode é enfrentar dividido uma ofensiva que mira toda a Nação.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
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