Há um som que chega antes da palavra. Ele se espalha pelo ar, chama a atenção de quem passa e, quando a gente percebe, já está dentro da gente. É o som da concertina — um instrumento que não toca só música, mas histórias inteiras.
No Espírito Santo, esse som virou identidade. Presente nas comunidades de origem europeia, especialmente entre descendentes de pomeranos, italianos e alemães, a concertina atravessa gerações como um elo vivo entre passado e presente. Mais do que embalar festas, ela sustenta tradições e mantém viva uma cultura que insiste em permanecer.
E é nesse cenário que a história ganha nome. Seu Angelino Zaager, 75 anos, começou cedo. Aos 8, ainda menino, já tocava a concertina que foi do avô. O que começou como brincadeira virou caminho de vida. Décadas depois, ele se tornaria não só músico, mas um dos poucos fabricantes do instrumento no Brasil — o único em atividade no Espírito Santo.
Nos anos 1980, passou a consertar concertinas antigas. Com o tempo, desenvolveu a habilidade de construir as próprias peças, em um processo artesanal que exige precisão e sensibilidade. Cada instrumento carrega não só técnica, mas também memória.
Seu Angelino eu aula de concertina. Foto: divulgação
Mas talvez o maior legado esteja em quem vem depois. Desde 2008, seu Angelino já ensinou mais de 200 alunos. Gente que chega de diferentes lugares, muitas vezes sem nunca ter tido contato com o instrumento, mas que sai dali levando um pedaço dessa tradição.
Ele fala disso com um misto de orgulho e preocupação. A concertina, para ele, não pode parar no tempo. É herança. É continuidade. E também é responsabilidade.
“A concertina precisa continuar, porque essa é uma herança dos nossos antepassados, não só dos pomeranos, mas também dos alemães e italianos. Eu fico triste em ouvir que em muitos locais não tem mais tocadores de concertina”, diz.
Morador da comunidade de Melgaço, município de Domingos Martins, nas montanhas capixabas, desde 1971, quando se mudou após o casamento, ele se tornou referência nacional. Recebe alunos de vários estados e convites para ensinar pelo Brasil. Já foi chamado até em Rondônia, mas a rotina por aqui ainda fala mais alto.
“Eles vêm de longe procurando a gente. E onde levamos os alunos para se apresentarem, todos ficam felizes. Já recebi convites de Rondônia para ensinar a concertina, mas é difícil ficar tanto tempo fora”, conta.
E foi justamente para não deixar essa história se perder que ela ganhou um novo formato.
A trajetória de seu Angelino agora também está registrada no documentário “Concertina: guardiã da cultura e história”, lançado nesta sexta-feira (24), na comunidade de Melgaço, com programação cultural e café típico pomerano.