O horário eleitoral começou. Mudam as músicas, os cenários, as cores e os candidatos. O roteiro, entretanto, parece o mesmo.
De um lado, promessas cuidadosamente produzidas. Do outro, ataques pessoais, acusações e tentativas de destruir a reputação do adversário. No meio dessa disputa está o eleitor, procurando alguma resposta para os problemas concretos de sua vida.
A crítica não está na existência do confronto. A democracia pressupõe divergência, fiscalização e oposição. O problema começa quando a disputa eleitoral deixa de ser uma comparação de projetos e se transforma em um campeonato de ofensas.
Nesse momento, a política deixa de discutir o país e passa a alimentar a si própria.
O Brasil que ficou fora da propaganda
Enquanto os programas eleitorais apresentam um país quase cenográfico, existe outro Brasil lutando para sobreviver.
É o Brasil das empresas endividadas, das famílias que perderam capacidade de consumo, dos empreendedores sufocados pelo crédito caro e dos produtores rurais que trabalham com margens cada vez menores.
A recuperação judicial é quase sempre o último recurso de quem ainda tenta continuar produzindo, empregando e pagando suas dívidas.
Mesmo depois das reduções recentes, a taxa Selic permanece em 14% ao ano. Nesse ambiente, o crédito deixa de ser instrumento de crescimento e passa a ser fator de sobrevivência.
O capital de giro encarece. O investimento é adiado. O consumo perde força. Empresas que contraíram dívidas quando os juros eram menores descobrem que a rentabilidade operacional já não é suficiente para suportar o custo financeiro.
Esse é o país real que deveria estar no centro do debate eleitoral.
A política que se alimenta da própria crise
O Brasil vive uma espécie de autofagia política.
A energia que deveria ser utilizada na construção de soluções é consumida na tentativa de destruir adversários. Governo e oposição passam mais tempo procurando culpados do que apresentando caminhos.
Não se trata de acusar este ou aquele candidato. Trata-se de reconhecer um comportamento que atravessa partidos, governos e eleições.
A polarização permanente oferece combustível para a manutenção do poder. Ela divide a sociedade, mobiliza militâncias e transforma qualquer crítica em uma declaração de guerra.
Enquanto todos brigam, os problemas permanecem.
A dívida pública continua crescendo. A produtividade avança lentamente. A infraestrutura permanece insuficiente. O sistema tributário continua complexo. A insegurança jurídica afasta investimentos. A educação não prepara milhões de jovens para uma economia cada vez mais tecnológica.
Nenhum desses problemas cabe em um ataque de 30 segundos.
Combater a pobreza ou administrar a dependência?
Os programas de transferência de renda são indispensáveis para milhões de brasileiros. Seria irresponsável negar sua importância, principalmente em períodos de desemprego, inflação ou perda de renda.
O problema aparece quando a proteção emergencial não vem acompanhada de uma verdadeira porta de saída.
Um projeto de país não pode se limitar a administrar essa realidade.
A política social precisa estar ligada à educação de qualidade, à capacitação profissional, ao emprego, ao empreendedorismo, à moradia, ao saneamento e ao crescimento econômico.
Quando o cidadão depende permanentemente do Estado para sobreviver, sua liberdade de escolha fica reduzida. Quando conquista renda própria, qualificação e oportunidade, torna-se efetivamente independente.
O objetivo de uma política pública não deveria ser produzir eleitores agradecidos, mas cidadãos livres.
O campo não precisa de carinho eleitoral
O agronegócio conhece bem essa distância entre propaganda e realidade.
Durante as campanhas, o setor costuma ser lembrado como símbolo de prosperidade. Fora delas, enfrenta crédito caro, seguro rural insuficiente, infraestrutura precária, insegurança jurídica e custos crescentes.
O campo não precisa de elogios sazonais. Precisa de previsibilidade.
Precisa saber como o próximo governo pretende enfrentar o endividamento rural, ampliar o seguro, melhorar a logística, garantir segurança jurídica e criar condições para que o produtor continue competitivo.
O Brasil não pode tratar sua principal força exportadora apenas como cenário para imagens de campanha.
As perguntas que deveriam ocupar a televisão
O diagnóstico os candidatos já têm. Todos conhecem os principais problemas do Brasil e sabem apontar o que não funciona.
A dificuldade começa quando precisam explicar como pretendem resolver. Nesse momento, fogem do “como fazer” como o diabo foge da cruz.
Diagnosticar é fácil. Governar exige muito mais. Exige coragem para enfrentar interesses, competência para escolher os caminhos e liderança para conduzir o país nas decisões difíceis.
Como o país pretende equilibrar as contas públicas sem aumentar ainda mais a carga sobre quem produz?
Como reduzir os juros de maneira sustentável?
Como elevar a produtividade brasileira?
Como transformar riqueza agrícola, mineral, industrial e ambiental em desenvolvimento?
Como oferecer ao cidadão condições para caminhar com as próprias pernas?
Essas são as perguntas que deveriam dominar o horário eleitoral. Mas elas exigem estudo, responsabilidade e coragem para apresentar escolhas difíceis.
É mais fácil criar um inimigo.
A eleição precisa ser maior do que os candidatos
O Brasil não precisa de salvadores da pátria nem da fabricação permanente de inimigos. Precisa de um projeto nacional que sobreviva às eleições e às mudanças de governo.
Um projeto que reconheça a dimensão deste país, liberte sua capacidade produtiva e transforme crescimento em oportunidade.
O horário eleitoral começou, mas o debate sobre o futuro ainda não entrou verdadeiramente em cena.
Se a campanha continuar limitada ao teatro das ofensas, teremos mais uma eleição movimentada e, depois dela, um país parado diante dos mesmos problemas.
A eleição escolhe quem governará o Brasil. Mas somente um projeto de Estado poderá decidir para onde o Brasil vai.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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