AGRICULTURA

Deriva de herbicidas causa prejuízos de R$ 210 milhões, mostra pesquisa

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Foto: Franciele Dalmaso/Aprosoja

Um levantamento inédito realizado no Rio Grande do Sul dimensionou o impacto econômico da deriva de herbicidas utilizados principalmente em lavouras de grãos sobre a produção de uvas. Segundo o estudo, os prejuízos provocados pelo problema ultrapassaram R$ 210 milhões entre 2018 e 2025, considerando perdas de produção, aumento dos custos de manejo e necessidade de renovação antecipada dos vinhedos.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado (ConceVitis-RS) e pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O levantamento analisou mais de 400 ocorrências de deriva registradas no estado, além de entrevistas realizadas em diferentes regiões vitivinícolas e análises territoriais. Ao todo, foram identificados pelo menos 700 hectares de vinhedos afetados.

Os pesquisadores alertam, porém, que a área atingida pode ser ainda maior, já que o estudo considerou os registros oficiais disponíveis.

Deriva reduz produtividade e antecipa renovação de vinhedos

Os impactos não se limitam à perda imediata da produção. Quando atingidas por herbicidas hormonais, as videiras apresentam sintomas característicos, como deformações nas folhas, além de redução da produtividade.

O problema também pode comprometer os ciclos seguintes. Uma videira afetada pode apresentar menor vida útil, fazendo com que o produtor precise antecipar a renovação do vinhedo e, consequentemente, aumentar os investimentos na propriedade.

De acordo com o estudo, caso o cenário persista, os prejuízos podem ultrapassar R$ 150 milhões em cinco anos, considerando os impactos sobre a atividade vitivinícola.

Regiões produtoras são afetadas

Foram identificados registros de deriva em importantes regiões produtoras do Rio Grande do Sul, como Campanha Gaúcha, região Central, Serra do Sudeste, Campos de Cima da Serra, Planalto e Missões. Também foram registrados casos, de forma mais pontual, na Serra Gaúcha.

Para o setor vitivinícola, o problema pode representar um obstáculo aos investimentos e à expansão da atividade no estado.

Representantes do setor ressaltam, no entanto, que a intenção não é impedir o cultivo de grãos, mas buscar condições para que as duas atividades possam coexistir sem que uma provoque prejuízos à outra.

Herbicidas hormonais estão no centro do debate

A deriva de herbicidas é uma discussão antiga no Rio Grande do Sul. Entre os produtos envolvidos está o 2,4-D, herbicida hormonal utilizado no controle de plantas daninhas.

O produto já esteve no centro de disputas judiciais envolvendo entidades dos setores de uva, vinho e maçã. Segundo os produtores, a deriva pode provocar deformações em folhas e flores e comprometer a produtividade das culturas atingidas.

Treinamento busca reduzir casos de deriva

Diante do problema, a Emater-RS desenvolveu o programa de treinamento Inspea-RS, voltado a agricultores e aplicadores de defensivos.

Já foram realizados mais de 1 mil treinamentos, com cerca de 24 mil aplicadores capacitados. O objetivo é melhorar a eficiência das aplicações, reduzir os casos de deriva e também evitar desperdícios de defensivos.

Aplicação correta pode reduzir risco em mais de 40%

Entre as principais medidas para reduzir a deriva está a escolha adequada das pontas de pulverização.

De acordo com o engenheiro agrônomo da Emater-RS, Wilder Dalprá, no caso de herbicidas hormonais, a recomendação é utilizar pontas que produzam gotas grossas, muito grossas ou extremamente grossas.

Somente a utilização de uma ponta adequada pode reduzir o risco de deriva em mais de 40%, segundo a orientação apresentada na reportagem.

Pontas que produzem gotas finas e muito finas, como as de jato cone, aumentam o potencial de deriva. Nesses equipamentos, aproximadamente 40% das gotas podem ser consideradas deriváveis. Com pontas que produzem gotas muito grossas ou extremamente grossas, esse percentual pode cair para uma faixa de 3% a 7%.

Condições climáticas também são decisivas

Além da regulagem dos equipamentos, as condições meteorológicas no momento da aplicação são fundamentais.

A recomendação é evitar aplicações com temperaturas excessivamente altas e observar a velocidade do vento. Segundo a Emater-RS, o vento deve ficar entre 3 km/h e 10 km/h.

Também é necessário considerar a umidade relativa do ar, que não deve ficar abaixo de 55% durante a aplicação.

A adoção dessas medidas, equipamentos adequados, regulagem e calibração corretas e respeito às condições meteorológicas pode contribuir para reduzir a deriva e tornar a aplicação de herbicidas mais eficiente e sustentável.

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